sábado, 31 de janeiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoPÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLVIII)

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLVIII)

 

 

                                                                                                                                                                              Clauder Arcanjo*

 

 

                                                                                                                 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Quadro “O Lavrador de Café”, de Candido Portinari)

 

Conversa

 

“A palavra triste pintava-se de crepúsculo na fronteira da nostalgia.”

(Antônio Torres, em Querida cidade)

 

Chegou, sentou-se e ouviu. Era quase noite.

De início, nada falou. Apenas atento ao rumo do prosear. De vez em quando elevava a cabeça, sinal de expectativa do que, a partir dali, surgiria. Se o contado era deveras bom, ele arregalava os olhos e, discreto, entrelaçava os dedos das mãos, como a conter um sinal de contentamento.

 

&&&

 

Na segunda vez, achegou-se e juntou-se ao grupo. Era já noite.

Desta feita nem se fez notado. Com pouco pediu a palavra e pontuou um elogio, com as mãos grandes a se expressarem mais do que a língua proferia. Os presentes, incomodados com a intromissão daquele estranho, seguiram no causo. E ele nem reparou no acontecido. Melhor, aguçou ainda mais as oiças para captar a continuação da narrativa.

 

&&&

 

Naquela vez, nem se sabe se era noite ou dia, ele trouxe os olhos brilhantes e os braços abertos. Na primeira pausa na conversa, enfiou seu verbo tão bem costurado ao que antes se apresentara que todos elevaram as cabeças e arregalaram as pestanas. E, de dedos entrelaçados, sentaram-se, a aguçarem os ouvidos para a narração daquele novo mestre que surgia.

Pouco se importando se varavam a madrugada ou se palestravam na boca da noite ainda.

 

&&&

 

Ela me anunciou o seu passado de forma tão encantadora, que desisti, sentindo que sua alma fora entregue, definitivamente, à nostalgia.

 

&&&

 

De onde vieste, trazes a flor do passado. Onde estás, mostras a rosa do presente. Para onde irás, indicas o terreno em que semearás o teu novo jardim.

 

&&&

 

O pastor desistiu de suas ovelhas. Alguns falam que o lobo era mais forte. Outros que seu aprisco não lhe era digno.

Sem se importar com quem tinha ou não razão, o lobo daria cabo do pastor.

 

&&&

 

Tomei da palavra e pressenti a minha língua trêmula e indecisa. Ao meu lado, um jovem me pediu permissão para começar e, minutos depois, concluí que ele me salvara do ridículo.

 

&&&

 

Ela me chamou ao canto e me disse que queria comigo conversar. Seus olhos, verdes como o oceano, naufragaram as minhas primeiras palavras. Sua boca, rubra como o sangue, assassinou o menor dos argumentos.

Morre-se bem, calado, frente a uma deusa assim.

 

&&&

 

Pela manhã, frente à vidraça flagrou sua imagem cansada. De olhos baixos ele voltou para casa, envergonhado de si próprio.

Ao cair da tarde, diante do oceano, reconheceu o eco de suas dores nas ondas espumantes. De olhos marinhos, retornou para o seu lar, aliviado por sentir, nas vagas, sua comunhão com a vontade do mundo.

 

&&&

 

Arou tanto o solo dos dias, medindo cada passo, ponderando as etapas do projeto, esmiuçando em demasia o agora, que deu na pedra. Sem a menor possibilidade de seguir (e colher) algo na vida.

 

“A conversa é como um arado: deve revelar uma grande superfície de vida, mas não mostrar estratos geológicos.”

(Robert Louis Stevenson, em O elogio do ócio e outros ensaios)

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

 

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes