sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLIII)

 

 

 

 

 

 

 

 

(Pintura “A família”, de Tarsila do Amaral)

 

Famílias

“Todas as famílias felizes são parecidas, cada família infeliz é infeliz a seu próprio modo.”
(Lev Tolstói, em Anna Kariênina)

Entulho de fio a pavio, da porta de entrada à dos fundos. Saunito Portavento entrou e percebeu que aquele prédio lhe daria muito trabalho para converter-se em lar. Arregaçou as mangas e chamou pela esposa, que, sem descer do carro, o esperava lá fora: “Venha, desça! Temos aqui muito serviço.” Ela não desceu, e o trabalho de Portavento correu noite adentro. E foram infelizes a seu modo, deixando a casa vazia.
Meses depois, mais entulho ainda, quase vazando pelas esquadrias, de entrada e dos fundos, Benito Ventarola entrou e julgou que aquilo tudo logo seria limpo, abençoando o seu matrimônio. Com as mãos calosas e os lábios risonhos beijou a esposa, que já estava ao seu lado; e, juntos, formaram um lar. E foram felizes, como toda família sabe ser.

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O remorso da tarde beija os meus lábios frios, e eu penso em desistir. Lá fora o aroma da ilusão me convoca para os braços da Utopia, e eu resolvo me entregar, mais uma vez, à paz do sonho. Pelo menos esta noite.

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Um bêbado de Licânia admoestou-me, em fumos de álcool:
“Se bebo pinga, chamam-me de pinguço. Se me entrego à cachaça, sapecam-me o apelido de cachaceiro. Se vou para a vodca, dizem que eu só quero ser russo. Se beijo os lábios de espuma da cerveja, incomodam-me com o chavão: ‘Agora quer ser rico, pé de cana?’. E, o que é pior, no dia em que entrei para um encontro dos Alcoólicos Anônimos, nem as beatas acreditaram em mim. Quer saber de uma coisa, agora cantarei aonde eu for: ‘Eu bebo sim… Tem gente que não bebe/ E tá morrendo…’.”
Foi levado ao campo-santo, sob o silêncio dos provincianos, um mês depois. E, falam as más línguas, que naquele velório beberam, sofregamente, o morto.

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Pastorei teus lábios o dia inteiro, na vã expectativa de que surgiria uma palavra flor por entre eles. Qual nada!, em rictos de fastio, eles só me denunciavam o teu nojo implacável por mim.

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Nos dias de hoje, Estevino Bozano lê cada página dos clássicos com um acento de troça. Desconfia, desde a infância, das tiradas consagradas pelo público de Licânia. Talvez, quem sabe, tudo passou a acontecer depois que flagrou o orador oficial licaniense ser aplaudido, de pé; e, logo depois, ficar sabendo que o Cícero da província colhera aquela “sublime construção” de um tomo alheio.

“Tanto aposento entulhado
e vais por ilimitados vazios.”
(Ida Vitale, em “Estilos”)

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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