domingo, 1 de fevereiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLCII)

Clauder Arcanjo*

 

Confidências a Maria Lúcia Alvim

 

Com fastio de tudo, tropeçando no vazio das horas, eis que me encontro com Maria Lúcia Alvim, em Batendo pasto:

 

Morcegos são filhos indesejados da noite

Eu os incito

   fluxo e refluxo

Pendurados

na parte mais alta do meu coração

 

Corro os olhos pelo chão, envergonhado. Elevo a vista, em seguida, para as nuvens, e sinto que algo tocou fogo no influxo da saliva. Vocábulos estranhos que calam e se penduram no varal do coração.

 

Figueira-mansa

escamosa

solitária

tenho as costas perfuradas por dois olhos

minhas artérias pubescentes

pulsaram no batismo do teu nome

árvore-corpo

      pojando

 

— Quem és tu, Maria Lúcia Alvim?

Grito, mas ninguém me responde. Em Juiz de Fora, nas Minas Gerais, um trem passa lento e, árvore-corpo, matraqueia, espojando:

— Po-e-ti-sa, po-e-ti-sa. Pooooo…e-ta-ta-ta-ta…!

“— Ó trem da treva/ Leva me leva”

 

Meus olhos são como dois bacorinhos

feridos de morte

 

Alucinado, recobro minha ferida sapiência e, a todo vão momento, tento a ti deslindar. No entanto cada verso teu, Alvim, é um corpo ferido de luz, marcado de sorte pela morte.

— Quem te escondeu, Maria Lúcia?

— “Corre os olhos num rasgo de Absoluto” — encapuchas-me.

 

Passei o dia engabelando meu corpo

de cá p’ra lá

de lá p’ra cá

Ensopei três sentimentos berrantes

gabolice

 

Chispa, chocalho

no frege das ferraduras

 

A metade de ti é maioria no mundo da poesia que antes encontrei. A terça parte da tua criação, Maria Lúcia Alvim, é meeira da “caçula dos arcanos”, bem assinalada de humano remate.

 

É tarde carícia

   a gota de orvalho

susta na folha

   o armistício

 

— Solta teu silêncio no umbral dos casarões silentes. Deixa tua voz, Lúcia lúcida, a tornear o pensamento incongruente, a revelar-nos, na estrofe que explode, a surpresa do singular momento.

 

Pleitear o Mistério me deixou desfigurada.

— Ninguém viu, tiziu.

 

Nobres aqueles que te leem. Vulgares aqueles que te desprezaram. Enquanto os modismos colhiam os aplausos sensaborões, os filhos de Araxá ouviam o teu rebelde pastoreio-lamento a ringir nas gavetas, juízo afora. Se houver vazio em tua prece poética, é porque os deuses só escutam quem se expressa como o (ad)vento.

Ninguém te ouviu, alva assim? Vamos bater pasto para, segundo Ricardo Domeneck, “morrermos menos miseráveis”.

 

&&&

 

Não quero dominar a natureza.

Na colheita do arroz eu faço anos.

Fui mordida de cobra assim no limpo.

Dos poentes farei meus aliados.

Das tempestades minha camarilha.

 

Dá-se no ventre da noite, Maria Lúcia, o reverso inconfesso. A dama extrai o veneno da fúria das palavras e injeta beleza e inovação na natureza das melodias. Calma, aliada da multiplicidade estética e sempre alheia ao brado das cobras (mal)criadas.

 

Este soneto é em usufruto

das palavras que aqui vou perpetrar.

O fruto se retalha, dissoluto.

Palavras criam corpo no lugar.

 

Corre meus olhos na poesia inconsútil; e eu, Arcanjo, me ponho a cismar por entre a “Litania da lua e do pavão”. Por que não eu conheci antes esta dama-poetisa de Araxá?

 

Fonte: Batendo pasto, de Maria Lúcia Alvim. — 2ª ed. — Belo Horizonte, MG : Relicário, 2022.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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