quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
InícioArtigosO ALIENÍGENA (PARTE XXXIII)

O ALIENÍGENA (PARTE XXXIII)

Clauder Arcanjo*

 

Pintura “A Oferenda”, de Saturnino Herrán.

Tudo estava escuro. Silêncio de incomodar surdos. Eu a caminhar sobre
um solo arenoso; quanto mais avançava, mais sentia recuar.
Como a noite se espichava, arregalei cada vez mais a botica dos olhos
para ver se antecipava uma fresta de um amanhecer que nunca vinha.
Tropecei num troço grosso e caí. Ao me levantar, passei a mão naquilo
que me levara ao solo e senti uma pele grossa. Grossa como nunca sentira.
Segui com as duas mãos a tal da courama espessa; isso para ver se
desvendava o mistério. Não era algo pequeno, logo percebi.
Subi naquele troço; e, quando dei por mim, estava sentado sobre um
bicho enorme. Ele se levantou, eu me aprumei para não cair, e vi seus olhos de
fogo, a alumiar o meu medo, revelando-me que estava em cima de um…
dinossauro.

— Um dinossauro em Licânia!

& & &

— Acorda, Acácio!
— Não, não, socorro! Um dinossauro. Por onde ele foi, Severíssimo
Pancão?
Severíssimo amassou os bagos, enquanto disparou:
— Eu bebo, e o Acácio é quem fica de porre? Maluco, você está vendo
coisas!
Companheiro Acácio encolheu-se, abraçando-se às próprias pernas.
Com pouco, abriu os olhos devagar, como a se certificar de que tudo não
passara de um simples sonho.
Nabuco, traquinas, tangeu um calango para junto do assustado homem.
Este, ao ver o réptil, fugiu em corrida desembestada, aos gritos de pavor:
— Meu pai do Céu, é o filhote dele.
— Volte aqui, seu filho de uma mãe frouxo! — exigiu Severíssimo
Pancão.
Qual o quê, caríssimo leitor! Acácio, em veloz fuga, a nos alertar:
— Fujam enquanto podem! O pai dele voltará depressa para se vingar
desta terra maldita!

& & &

E eu, narrador surpreso, fico por aqui. Confesso que um dinossauro,
mesmo em pesadelo, pôs-me cabreiro com esta minha historieta.
Melhor dar um tempo com tal noveleta. Não sei o que pode mais
acontecer nesta narrativa de mistério.
Se um alienígena já era demais para alguns; se um gato, metido a
sabido, enchera o bornal de credulidade de outros; se um bando de
personagens frouxos tornara tudo tão malvisto pela crítica… Um dinossauro,
com um filhote em tez de calango, pôs o meu narrar em crise mortal.
Não sei se volto. Fomos felizes, enquanto durou.
— Isso parece juras de casório, seu Arcanjo!
Quem falou isso? Apareça, apareça!
“Tudo estava escuro. Silêncio de incomodar surdos. Eu a caminhar
sobre um solo arenoso; quanto mais avançava, mais sentia recuar.”
Nem pense em me plagiar, seu infeliz! Apareça, se for homem! Apareça!

& & &

Severíssimo Pancão, que a tudo assistia incrédulo, coçou os bagos com
força. Em seguida, conferiu o “aroma dos bagulhos”, inspirando a essência do
odor escrotal.
João Américo, o protofilósofo de Licânia, mesmo distante da cena,
filosofou:
— In terra timorum, parvulus in gigantem mutatur.
Nem Deus, muito menos o Diabo, sabe o que virá.

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-
grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes