quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
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Joyce Moura: Não se trata apenas de uma tragédia individual, mas coletiva

A história de Gerson é daquelas que escancaram a fronteira tênue entre a vida real e a vida imaginária  duas dimensões que habitam todos nós, mas que, em alguns sujeitos marcados por vínculos frágeis, traumas e negligência institucional, podem se misturar de forma dolorosa, perigosa e irreparável.

 

Gerson cresceu em um terreno psicológico instável. Uma vida entre rachaduras,  família, loucura e desamparo. Mãe com esquizofrenia; avós com sofrimento mental; passagens por órgãos de proteção; acolhimentos e devoluções; Estado classificando seu sofrimento como “apenas comportamental”.

Esse menino se formou sem chão, sem espelho, sem bordas psíquicas suficientes para organizar o próprio mundo interno.

 

Para muitos jovens assim, a vida real vai perdendo cor, e a vida imaginária se apresenta como um refúgio, um lugar onde eles podem ser outros, viver outros papéis, sentir uma potência que a realidade nunca lhes permitiu acessar.

 

Segundo a conselheira tutelar do bairro de Mangabeira, em João Pessoa, que acolheu Gerson várias vezes, ele dizia repetidamente que queria fazer um safari. Aqui, a psicologia nos convida a ouvir além das palavras.

 

O safari, essa aventura perigosa, selvagem, grandiosa pode ter representado:

• Uma fuga do caos interno

O menino que nunca teve proteção, talvez sonhasse com territórios onde ele pudesse enfrentar seu próprio medo e sobreviver a ele.

• Um desejo de pertencimento a um mundo imaginário onde ele seria herói

Um safari é um cenário mítico: uma travessia. Para alguns sujeitos, representa a fantasia de renascer de si.

• Uma forma simbólica de dialogar com feras internas

Leões, na psicanálise, podem simbolizar o encontro com aquilo que é indomável dentro de nós: impulsos, dores antigas, memórias traumáticas, angústias sem nome.

 

No momento em que Gerson entra na jaula, não é apenas um comportamento de risco, assistido por inúmeros visitantes do Zoológico Bica, é um gesto trágico, mas carregado de simbolismo

Para alguns jovens marcados por traumas precoces, a morte não se apresenta necessariamente como desejo, mas como falta de percepção de perigo, como ruptura da barreira que separa fantasia e realidade, como um chamado enigmático para reencontrar um lugar perdido dentro de si.

Às vezes, o sujeito se aproxima do abismo não porque quer morrer, mas porque não sabe mais onde está o limite entre o possível e o impossível, entre o eu e o mundo.

O Estado olhou para Gerson e viu apenas um “adolescente difícil”. Mas não viu: a história intergeracional de sofrimento psíquico, a precariedade afetiva, as falhas de cuidado, a ausência de referência adulta estável, o pedido silencioso de ajuda.

A psicologia sabe algo que a política pública ainda demora a compreender: comportamento “difícil” é frequentemente sofrimento não reconhecido.

Jovens que atravessam a vida com buracos psíquicos profundos não buscam o perigo por rebeldia, mas porque não foram ensinados a reconhecer o próprio valor, o próprio corpo, o próprio lugar no mundo.

A morte de Gerson por uma leoa é uma imagem brutal, tão brutal quanto a vida psíquica que ele enfrentava.

É simbólico que ele tenha morrido justamente diante do animal que, em sua fantasia, representava força, grandeza, coragem e também destruição.

A vida imaginária de Gerson era maior do que a vida real conseguia acolher.

E nenhuma instituição o ajudou a construir a ponte entre uma e outra.

Há personagens da vida real que parecem saídos de mitos trágicos.

Gerson é um deles.

Ele é o menino que: habitava mundos que ninguém conseguia enxergar, carregava dores que ninguém decodificava, buscava aventuras que talvez representassem a tentativa de organizar um self fragmentado, e que encontrou a morte justamente onde buscava sentido.

No fundo, o que sua história nos diz é simples e profundo: Quando a realidade é dura demais, a imaginação pode virar abrigo.

E quando nenhum adulto protege esse abrigo, o jovem fica sozinho com suas feras internas.

Não se trata apenas de uma tragédia individual. É uma tragédia coletiva.

É a história de um Estado que falhou, de uma sociedade que não escuta o sofrimento mental, de um menino que cresceu sem espelhos, e de uma fantasia que, não sendo acolhida, terminou em morte.

 

Por Joyce Moura – jornalista e estudante de psicologia

 

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