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Homenagem ao meu pai, Josias de Oliveira Souza

No dia dos Pais, do ano de 2007, publiquei na “Revista Brasilia em Dia”, editada no DF, o texto a seguir transcrito, em homenagem ao meu Pai, Josias de Oliveira Souza. Repito a homenagem póstuma, neste dia 9 de agosto de 2020.

Ney Lopes

Homenageio a figura do meu pai, Josias. Católico, estatura mediana, humilde por natureza, cabelos lisos bem penteados, voz mansa, simples, solidário “de plantão”, olhava nos olhos de quem apertava a mão com firmeza.

O seu maior orgulho era ter nascido em Assú, no Rio Grande do Norte, conhecida como a “cidade dos poetas”. Observador, gostava de poesia.

Era alfaiate. Com a presença norte-americana em Natal, durante a II Guerra Mundial, aprendeu tirar medida de roupa, cortar tecido, mas não sabia costurar. Instalou a Alfaiataria Globo, em Natal. Mensalmente, ia à Recife comprar no crédito aviamentos para alfaiate. Certa vez, levou-me em uma dessas viagens.

Ouvi do gerente da firma Fortunato Russo o elogio de que ele era o seu cliente “mais correto e pontual nos pagamentos”. Transmitiu-me a lição que sigo até hoje, de não gostar de dinheiro emprestado e pagar em dia as obrigações. As pessoas mais ligadas a ele diziam que “atravessava um rio a nado para fazer um favor”.

Repetia sempre as máximas: “a única coisa duradoura que os pais dão aos filhos é a educação”; “o trabalho, qualquer que seja, não envergonha ninguém”. Ele era rigoroso com os estudos dos três filhos. Exigia que fizéssemos o dever de casa à sua frente, na alfaiataria.

Preocupava-se com o meu futuro. O seu maior sonho era que fosse “Guarda Marinha” (oficial da Marinha de Guerra). Depois, quando decidi ser jornalista e advogado, afirmava que morreria tranquilo se eu chegasse a ser procurador federal. Sou procurador federal.

Ele acompanhava tudo de política, embora sem nunca ter militado. Quando lhe dizia que um dia seria político, olhava-me com os olhos abertos e brilhosos, quase lacrimejantes e exclamava: Sou um homem pobre. Não posso ajudá-lo. E no Rio Grande do Norte a política é um “clube fechado”, de famílias tradicionais. Não lhe deixarão entrar. E, se entrar, vão lhe perseguir e sofrerá muitas injustiças”.

Citava, como exemplo, Café Filho, que o próprio Rio Grande do Norte não reconheceu o seu valor pessoal.

No final dos anos cinquenta surgiram as primeiras roupas feitas. Seria o momento para a Alfaiataria Globo transformar-se em indústria. Nessa mesma época, um empresário local chamado Nevaldo Rocha, tinha uma loja de camisas em Natal, logo transformada em fábrica.

É hoje a Guararapes, que somada a rede Riachuelo, transformou-se numa das maiores empresas nacionais. O meu pai, pela sua simplicidade, nunca ousou ir além do que cultivar a amizade dos seus clientes, que encomendavam roupa sob medida. Negava-se a pedir empréstimos em bancos, ou favores a governo.

Resultado: os clientes passaram a comprar roupa feita e a Alfaiataria Globo fechou. Muitas vezes, confessou-me as suas dificuldades financeiras. Eu era adolescente.

Não tive alternativa, senão começar a trabalhar aos 14 anos de idade. Fui revisor e repórter no jornal “Tribuna do Norte”, em Natal.

Recordo a aflição doméstica na hora de pagar os estudos dos filhos e comprar material escolar. Por essa razão, quando assumi, em 1975, pela primeira vez, o mandato de deputado federal, apresentei projeto de lei, propondo a criação pioneira no Brasil do Crédito Educativo. Depois, a Revolução copiou essa minha ideia.

Lembro-me das últimas alegrias do alfaiate Josias. A minha formatura em 1967, em que fui o orador da chamada Turma da Liberdade, que tinha Juscelino Kubitschek como patrono, mesmo enfrentando a ira do governo federal e o meu casamento com Abigail, de quem sempre gostou. Morreu aos 56 anos.

Esteve dias internado num navio-escola norte-americano Hope -, ancorado em Natal. Supersticioso com o número nove ou numeração que desse em “nove fora nada” faleceu, por ironia do destino, no dia nove de maio, no apartamento número nove.

Herdou a superstição da minha avó Mafalda, que gostava de anotar as coincidências da vida. Ela registrou que o seu filho único nascera numa terça-feira; o último aniversário e a primeira operação numa terça; a cirurgia reaberta duas vezes em terças feiras e numa terça morreu.

Autorizei, em nome da família, a doação da córnea dos seus olhos para transplante no navio Hope. Exigi nunca saber quem se beneficiou dos olhos dele, nem ser feita qualquer divulgação. Até hoje, desconheço quem passou a enxergar com os olhos do meu pai.

Neste domingo, permita-me o leitor, lembrar “Seu Josias”. Logo mais, ao lado dos meus filhos, teremos o almoço em família. Recitarei, baixinho, a trova da música de Sérgio Bittencourt: “Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia contente o que é viver melhor… Naquela mesa está faltando ele, e a saudade dele está doendo em mim”.

Ney Lopes é jornalista, ex-deputado federal e advogado – [email protected]

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