sábado, 31 de janeiro de 2026
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Clauder Arcanjo – PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CXCVI)

Foto: “Espera”, de Marcão Melo.

Colóquio com a Sensatez

 

A chuva rasgou o calor do fim da tarde, e eu corri para o teu colo.

— O que te trouxe aqui?

Não conseguia te responder, apenas a sensação de que o óbvio não te bastaria como resposta.

Com as mãos trêmulas, ousei a tentativa de um novo abraço.

Teus olhos sem brilho cerraram a porta da minha vontade, e eu me afastei. Com a sensatez a me fazer saudoso de ti.

No meio da madrugada, a chuva a persistir, fina e insolente. Enquanto, sozinho, lacero-me a inquirir:

— O que me leva a ti?

 

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A “tempestade cerebral divergente”, exercício proposto por um mestre da autoajuda, pôs abaixo a empresa inteira.

“A extrema criatividade foi o nosso sepulcro!”, picharam no muro da falida indústria.

 

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O chefe dirigiu-se ao seu impetuoso e inventivo liderado:

— Sim, sejas criativo, desde que a tua solução concorde com aquilo que eu te digo.

 

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— Por que tantas reuniões? — desabafou o chefe da seção.

— Temos que achar uma solução — aparteou o chefe de divisão.

— Que tal marcarmos uma reunião para diminuir a quantidade de reuniões? — propôs o imperial superintendente.

E todos os presentes aplaudiram-no, extenuados, pelo brilhantismo da ideia.

 

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— Você diverge, senhor Eurípedes, porque sempre se inclina para ver melhor — observou-lhe o velho e servil assistente.

Dona Sarita, a bela secretária, depressa levou as mãos ao encontro da saia, com receio de ter dado brecha.

 

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No mês passado, todos foram convocados para, em torno de uma grande mesa, participarem de um exercício de criatividade, a fim de impulsionarem os resultados individuais, bem como da corporação.

Salustiano, desconfiado, sentou-se ao canto. Os olhos suspeitos vigiavam o ambiente, enquanto a mente sondava tudo, inquieta.

De repente entrou na sala um jovem enfatiotado a falar acerca de “romper barreiras” e “sonhar com o novo”. Salustiano, calado estava, calado continuou.

Horas depois, Salustiano tomou parte ativa de um exercício de banir os julgamentos:

— Quem julga cerceia! — exortou o janota, arvorando-se doutor na metodologia proposta.

Decorrido mês e meio, Salustiano, desempregado, lamenta-se por não ter contido seus julgamentos durante a prática da “tempestade cerebral” da empresa.

Até hoje não se perdoa por ter engolido a corda que o consultor lhe dera para soltar a “pipa da língua”.

Seu Galiastro, diretor de RH, não vira com bons olhos a comparação dele com um pato:

— O nosso diretor para mim é um pato: voa mal, corre mal, nada mal…

“Quem participa de tempestade é vítima dos maus ventos!” — filosofa Salustiano, hoje mergulhado na profunda pindaíba.

 

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Passou a vida inteira resolvendo problemas alheios. Com o tempo, alheou-se de si mesmo.

 

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Coletou os dados, separou-os, classificou-os, tratou-os e… percebeu, de forma inequívoca, que a solução da crise passava por sua saída da companhia.

No fim da noite sumiu com os dados.

 

Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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