Geraldo Maia – Um Milagre de Santa Luzia

Podemos dizer que Mossoró é fruto de um milagre de Santa Luzia. O local, onde surgiu a cidade de Mossoró, era o chão da Fazenda Santa Luzia, que pertencia ao sargento-mor Antônio de Souza Machado.

Consta que por volta de 1772 D. Rosa Fernandes, esposa de Souza Machado, teria sido acometida de uma doença na visão e como boa cristã se valeu de Santa Luzia, prometendo que se ficasse curada daquela doença, mandaria construir no pátio da fazenda uma capela em seu louvor. E o milagre se realizou, tanto assim que naquele mesmo ano a capela começou a ser construída, com todas as licenças adquiridas em 5 de agosto de 1772 pela Provisão de Dignidades do Cabido de Olinda/PE, de forma que em janeiro do ano seguinte, 1773, já era realizado o primeiro batizado, e em maio o primeiro sepultamento.

Mas apesar da pequena capela está funcionando normalmente, não tinha ainda a imagem do seu orago. Não havia na região artesão santeiro. A solução surgiu quando em 1779 Dona Rosa Fernandes mandou buscar em Portugal uma imagem de Santa Luzia, em madeira, adquirida pelo valor de 25$600. Essa imagem é a mesma que até hoje é conduzida nas procissões e peregrinações. E a partir desse ano começavam os festejos de Santa Luzia.

De uma pequena capela construída em 1772, surgiu o povoado. Em 27 de outubro de 1842, pela resolução número 87, a Capela de Santa Luzia era elevada à categoria de Matriz, desdobrada assim da freguesia do Apodi a quem esteve ligada desde sua construção. Surgia assim a Freguesia de Santa Luzia do Mossoró. A Resolução nº 246, de 15 de março de 1852 elevava a categoria de Vila a povoação de Santa Luzia de Mossoró. Pela referida Resolução, a Vila passaria a se chamar apenas de “Mossoró”, ficando Santa Luzia como Padroeira. E finalmente em 9 de novembro de 1870 a Vila de Mossoró, através da Lei nº 620, era elevada ao predicamento de Cidade.

Desde a chegada da imagem de Santa Luzia em 1779, que a festa é realizada em Mossoró e apenas em três ocasiões não aconteceu. A primeira foi em 1860; naquele ano, a Irmandade de Santa Luzia, em reunião realizada em 8 de abril, resolveu que não se festejasse a Padroeira, enquanto não se desse por terminado o serviço de reforma da Igreja Matriz, que continuava em obras. Na verdade, não foi uma reforma. O prédio foi totalmente refeito pelo vigário Antônio Joaquim, num trabalho que durou 10 anos, de 1858 a 1868, mesmo assim sem as torres, que foram construídas bem depois.

A segunda ocasião em que não se comemorou a festa de Santa Luzia foi em 1865, ainda em consequência das obras da igreja, como consta em um livro de atas da Irmandade. Determinava aquela instituição, que o dinheiro que seria gasto na festa fosse aplicado na construção do templo.

Setenta anos depois, em 1935, a festa de Santa Luzia mais uma vez deixava de ser realizada. E dessa vez a decisão foi do próprio pároco, o Padre Luís da Mota. A razão apontada era o estado de intranquilidade pública reinante no Estado, em particular em Mossoró, por causa da intentona comunista deflagrada em Natal – a Revolução Vermelha – como ficou conhecida, que tomou o governo e instalou ali a miniatura de um “soviet”, criando órgãos administrativos e fazendo circular um jornal “A Liberdade”. Essa proibição rendeu várias críticas ao vigário. Diziam alguns:  “- Mas, já se viu que coisa! Agora, não tendo mais a quem perseguir, o padre mete Santa Luzia na Política!… Quanto mais se precisava de reza, ele manda fechar a igreja. E ainda tem quem fale de uns ateus de meia-cara que andam por aí. “

Em 2020 a festa da Padroeira foi mais uma vez comprometida, e dessa vez por causa da pandemia do corona vírus. Não podemos dizer que não aconteceu; aconteceu sim, mas de forma diferente. A Igreja teve que se adaptar as recomendações feitas pelos órgãos públicos, limitando o número de pessoas no templo, mantendo distanciamento, uso de máscaras de proteção e oferecendo álcool para que as pessoas pudessem evitar contaminação pelo vírus. A procissão de Santa Luzia, tão famosa por trazer gente de toda parte do país, foi trocada por uma carreata pelas ruas da cidade; a parte profana da festa, com barracas de comidas, jogos e parques de diversões para as crianças, camelôs vendendo suas lembrancinhas, praticamente não aconteceu; o leilão, tão esperado por todos, aconteceu virtualmente, inaugurando uma nova forma de contato entre a Igreja e os fiéis.

Mesmo com todas as mudanças havidas na comemoração da festa de nossa Padroeira, o povo esteve nas ruas, nas novenas e missas realizadas na Catedral, afixaram faixas alusivas ao evento pelo trajeto da carreata, promoveram manifestações culturais, ou seja, mesmo com a pandemia, “o povo com alegria saudou Santa Luzia”.

 

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