sábado, 31 de janeiro de 2026
InícioArtigosClauder Arcanjo - Pílulas para o Silêncio (Parte CLX)

Clauder Arcanjo – Pílulas para o Silêncio (Parte CLX)

(Samba, de Di Cavalcanti)

 

Nada vos sovino:

com a minha incerteza 

vos ilumino

(Ferreira Gullar, em A luta corporal)

 

A avareza dos meus olhos, na manhã em que os homens distribuem saudações protocolares, se guarda para o instante em que a minha distopia se encontrar com a tua utopia.

A minha melhor dádiva, crê-me, é a minha incerteza.

 

&&&

 

Hoje não quero as flores colhidas do jardim. Não aspergidas pelo orvalho da manhã e dispostas em vasos chineses, com a mera intenção de o mundo enfeitar. Sonho tão só com o botão que se rebela no pântano das horas e oferta, teimosa, as suas cores tímidas, quando tudo em redor se banhou de cinza.

A mais bela flor é aquela que insiste na ressureição do inferno.

 

&&&

 

— Alguém ouviu um poema nesta manhã? — Argui no centro da praça.

— Quem é este maluco?

— Dizem que chegou de Shangrilá e está à procura de uma tal de Musa — respondeu-me um homem de paletó e gravata, conhecido por suas posses.

— Eu cuidarei dele! — Gritou o bebâdo de Licânia, convidando-me para visitar seu recanto.

— Não se preocupe comigo, amigo, é apenas um teste que faço ao entrar em cada cidade — avisei-o.

— E caso o senhor precise de um assistente, estarei à sua disposição. Entre e vamos ouvir a minha musa, ela é tímida como o quê — e me tocou para o interior da sua morada.

À entrada, numa pequena placa no alto da porta: “Shangrilá”. Quando dei por mim, ele versejava, de joelhos, frente a um retrato de uma jovem, disposto na cabeceira do simples leito.

Os poemas vararam a noite, e eu, simplesmente, me esqueci de mim.

— Fique aqui; a casa é sua, Poeta!

 

&&&

 

Entre a queda do mercado dos títulos e a queda na confiança dos homens, estarei sempre preocupado com as últimas, ações que não correm na Bolsa.

 

&&&

 

Mudando de assunto, um beija-flor disse-me que não voltaria aqui, até que cuidássemos melhor de nossos jardins.

Enquanto isso, preocupa-me, os jornais não consideram isso uma notícia.

 

&&&

 

Acordei ouvindo canções antigas, daquelas que minha mãe ouvia nos meus tempos de criança. Os olhos tangeram-se para um ponto distante, desfocado do agora; a mente vagou no compasso de coisas de outrora, e minha boca quis gritar um brado de rebeldia.

Quando saí de casa, um veículo desfilou pelas ruas a bradar uma canção em que o português e as damas eram maltratados.

Tapei os ouvidos e cantarolei um trecho de “Ave Maria no Morro”: “E o morro inteiro no fim do dia /Reza uma prece ave Maria /E o morro inteiro no fim do dia /Reza uma prece ave Maria…”

Valei-nos, Herivelto Martins! Ilumine-nos, Santa Virgem Maria!

Clauder

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes