sábado, 24 de janeiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoClauder Arcanjo: À PROCURA

Clauder Arcanjo: À PROCURA

À procura

 

Clauder Arcanjo

 

Entrou na sala e foi indagando ao velho:

— O senhor viu, vô Raimundo?

O homem limpou os olhos, já atacados pela catarata, e emendou:

— O quê, Francisco?

— Deixa pra lá! — E, sem paciência, meteu os pés em direção ao muro. Lá, encontrou a tia Netinha esticando roupa no varal.

— E a senhora, titia, viu ou não? Se não, me diga sem perda de tempo. Tenho pressa.

A boa senhora, a sofrer com a inflamação nos joanetes, interrompeu o serviço e perguntou:

— Vi nada, não. Eu nunca saio de casa, passo os dias no tanque, ninguém liga para mim…

O jovem percebeu que ela de nada sabia, e cortou o caminho para a calçada. Mal rompeu o umbral da porta, deparou-se com a avó Nana; sentada na cadeira de balanço, a mordiscar saudade, a mexer com o vazio das horas, por entre os dedos murchos.

— E a senhora, vó Nana?

— Não vi; e tenho a lhe dizer algo, meu neto, aquilo que se procura, com afobação e embaraço, some na frente das ventas da gente e não deixa sinal nem rastro.

Afoito, pediu-lhe a bênção e, em seguida, sumiu no rumo da Praça do Poeta.

Cansado e aflito, percebeu que aquela procura não lhe seria fácil. Cabisbaixo, Francisco matutou desgostos. Refez, na mente, todo o caminho que percorrera, as pistas que, supostamente, se lhe apresentaram, as pessoas que interrogara.

— Ah, meu Deus!

Ao levantar o rosto, ele deu pela presença de Pelô ao seu lado. Sentara-se no banco da praça, em frente ao monumento em honra ao poeta Padre Antônio Tomás. Sem perceber, entretido com sua busca, ele não notara a chegada do mendigo de Licânia.

— E você, Pelô, viu?

O pedinte mascou um silêncio esquisito. Com pouco, em tom baixinho, disse:

— Eu… vi.

 

& & &

 

No meio da madrugada, Francisco e Pelô entraram por entre a mataria nas ribanceiras do rio Acaraú, em passos medidos, calados, os olhos abertos, as oiças aguçadas. Ao chegarem no Rio do Meio, embaixo de uma ingazeira, escutaram uma voz soturna:

— A coisa que era coisa agora é só sumiço. Voltem e se esqueçam do que viram.

— Mas não vi nada! — Francisco quis argumentar.

Pelô segurou-lhe o braço, como a conter aquele despautério, e o conduziu de volta a Licânia.

A cidade, mergulhada numa neblina incomum, recebeu-os.

O bêbado Batista, que sempre defendera a existência de extraterrestres nos arredores da província, foi depressa interpelando-os:

— Vocês viram?

E os dois, como se não houvessem realizado nenhuma procura, sumiram por entre a neblina.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes