domingo, 1 de fevereiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoPÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLXXIX)

PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCLXXIX)

                                                                Clauder Arcanjo*

 

 

 

(Igreja Matriz de Santana do Acaraú/CE)

 

Memórias infantes

A criança que eu fui não viu a paisagem tal como o adulto em que se tornou seria tentado a imaginá-la desde a sua altura de homem.

(José Saramago, em As pequenas memórias)

 

Na manhã desta terça, o sol a brilhar adulto e eu a pensar no meu tempo de criança. Lembranças da escola, das brincadeiras na beira do rio, das estripulias por entre o matagal, do banho de bica. Hoje, no filme da memória, tudo traz um sabor mais intenso, parece que a mente, cabreira, seleciona o que deve ser guardado, cultivado e retido.

 

***

 

Confesso que tive dramas, sofri traumas, superei alguns terríveis dissabores. No entanto, com o passar do tempo, se esquece das tragédias, se sublima as dores e, no cadinho das reminiscências, fica depositado tão somente o minério valoroso das excursões infantis.

 

***

 

Meu pai, terno e sereno; minha mãe, confiante e zelosa; meus irmãos: Dedé, Baía, Tito e Cambão. Uma família que, conforme papai propagava, era a sua maior riqueza, o seu melhor patrimônio.

Hoje, décadas depois, vejo-me a cultuar, diuturnamente, esse aprendizado no lar que constituí.

 

&&&

 

Tardes há, principalmente na hora da sesta, em que me acode, numa espécie de filme na mente, as traquinagens que fazíamos, eu e meu irmão Baía, enquanto nosso velho tentava repousar no quarto ao lado.

Só sossegávamos quando, após alertas seguidos, ouvíamos o rangido dos armadores, a anunciarem que o bom Zequinha perdera a paciência e nos tangeria janela afora, encerrando tamanha bagunça.

 

***

 

— Hoje a minha infância ainda sobrevive na província? — inquire-me a razão.

E a poesia me responde que sim e que não. Sim, se eu olhar e colher o vislumbre do passado na poeira das ruas e no aroma do vento. Não, se quiser recolher, fidedignamente, as cenas que só se projetam no cinema do passado.

 

***

 

Por onde andam todos? Dederardo, Gordinho, Gazumba, Peditão, Gatinho…

Neste julho, saudoso, visitei Licânia e lá os reencontrei. Nenhum deles era mais aquele garoto que, na infância, deixei.

 

***

 

E resolvo seguir por entre as horas, a relembrar vez em quando tais memórias infantes. Se para você isso é mero exercício de fantasia, deixe que eu me iluda com esse tesouro que sempre trago à altura do coração.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes