sábado, 31 de janeiro de 2026
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Ney Lopes – Perdas do Brasil na “guerra fria”

Ney Lopes – jornalista, ex-deputado federal e advogado – [email protected]

No primeiro semestre de 2021, provavelmente será realizado o leilão das frequências do 5G para as operadoras de telefonia móvel.

O 5G é a quinta geração de redes móveis.  Permite aumento e estabilidade, quase inimagináveis, para smartphones, tablets, carros autônomos, televisões, celulares, residências e até cidades inteligentes. Opera com velocidade 20 vezes maior do que o 4G.

O Brasil está “entre a cruz e a espada”. Terá que esclarecer no leilão, o imbróglio” de permitir, ou não, a participação da empresa chinesa “Huawei”.

O presidente Trump, em campanha política, “maliciosamente” “politizou” o tema e quer afastar a China na disputa, ao denunciar que o país deseja espionar as comunicações estrangeiras.  Trump não dá nenhuma garantia, de que as preferidas dos Estados Unidos são 100% seguras.

Em pleno século XXI, surge nova “guerra fria”, com a Casa Branca desejando manter a hegemonia americana, no momento em que a empresa “Huawei” acaba de superar, no mercado de telefonia móvel, o grupo californiano “Apple”, fundado por Steve Jobs.

O veto aos chineses, forçado por Trump, preocupa a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que considera prejudicial ao Brasil e causará retaliações, especialmente no agronegócio. Paulo Guedes, ministro da Economia, também quer um modelo aberto de concorrência.

O grande risco está na influência da ala ideológica, do governo Jair Bolsonaro, que enxerga “comunismo”, “esquerda” e “vermelhinhos”, em tudo que contrarie a sua paranoia. O líder dessa “ala” é o ideólogo de ultradireita, Olavo de Carvalho, cuja filha Heloísa de Carvalho Martin Arribas disse à EPOCA, que ele já foi muçulmano e chegou a ter três esposas, ao mesmo tempo. Esse grupo “olavista” defende a exclusão da “Huawei”, por considerar ameaça à soberania nacional.

A ala militar não se manifestou. O general Mourão, com bom senso, mantém interlocução com a China.

Inegavelmente, o 5G trará avanços de inclusão digital e o nosso país não poderá deixar de usar a tecnologia.

Entre os benefícios estão o incremento da telemedicina, com possibilidade de cirurgias online por meio da robótica; ampliação do uso de drones para entrega de produtos; ações na segurança pública; monitoramento de estradas etc.

Ao invés de exclusão da “Huawei”’, o ideal seria o Brasil buscar o melhor preço para o usuário final, a qualidade de tecnologia e a segurança de auditoria sobre os equipamentos.

O mercado brasileiro poderá atrair até 180 bilhões de reais em investimentos, por sermos o país que tem mais celulares que habitantes, no total de 225,3 milhões de aparelhos para 209,5 milhões de pessoas.

A maior preocupação com possíveis medidas extremas, vem do “agrobusiness” brasileiro, que exporta produtos agropecuários e alimentos para os chineses, equivalente a 33.8% do total de vendas, com volume de exportações quatro vezes superior ao dirigido para os Estados Unidos, o nosso maior concorrente nessa área.

O Brasil é o maior produtor global de soja e carnes e não podemos desconhecer que a China responderá por um quarto do aumento do consumo de proteínas animais do mundo, até 2030.

Além disso, os chineses detêm 18% da capitalização do mercado global e 13% das exportações. Após a pandemia, as exportações brasileiras estão cada vez mais dependentes do comprador chinês.

As nossas vendas saltaram de 1,9% (2001) para 33,8%. Enquanto isto, o comércio com os Estados Unidos caiu de 22,6% para 9,9% e com a União Europeia de 25,4% para 15,4%.

Diante de tantas evidencias, o nosso melhor caminho será deixar a decisão sobre o 5G nas mãos do mercado, com a adoção de regras rígidas de fiscalização, em defesa do consumidor, através da agencia reguladora. Além da Huawei, Samsung e Apple, as outras concorrentes oferecerão as suas propostas, no leilão da ANATEL.

O presidente Trump não tem o direito de impor, o que será melhor para os nossos interesses. Ele, como conservador, conhece a teoria de Friedrich Hayek, inspirador dos republicanos, que considera a “concorrência” o alicerce das economias livres.

Nunca é demais lembrar, que “os americanos são frios e preservam seus interesses: “amigos, amigos; negócios à parte”.

Nesta “guerra fria” deixar de aplicar a “livre concorrência”, para atender certos ensandecidos, “apoiadores” do Presidente, será condenar o Brasil às consequências do ditado popular, de que “na briga do rochedo com o mar, quem perde é o marisco”.

O pior: dará um “tiro no pé”, pelas perdas causadas ao nosso bem-sucedido agronegócio.

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