quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

UTOPIA

Clauder Arcanjo*

 

(Pintura “Garota na janela”, de Salvador Dalí.)

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
(Mario Quintana, em “Das Utopias”.)

 

— Mas isso é uma utopia, amigo!
— Ah, quem dera! Quem me dera!

           …
— Sim, eu daria tudo para me ver hoje em Utopia.
— Não estou te entendendo, Acácio.
Antes de responder, Companheiro Acácio coçou a ponta do queixo e engoliu em seco. Como se maturasse algo mais nos lábios do que no pensamento. Continuou:
— É muito comum as pessoas abusarem do uso de expressões ou vocábulos, Castilho, sem entender a origem ou o significado verdadeiro deles.
— Está então me chamando de ignorante!
Acácio respirou fundo, como se necessitasse pesar bem cada frase, a fim de evitar ainda mais alvoroço naquele diálogo. Baixou a face, revisitou a sua recente imersão no universo de Thomas More e declarou:
— Amigo Castilho, digamos que estou apenas tentando sair da superfície das palavras e conhecê-las no seu âmago. Agindo assim, creio, podemos evitar ruídos.
Nessa hora o gato Nabuco resolveu participar:
— Shzzzf… shfzzz… miau… shfzzz…
Castilho estranhou a intromissão de um animal de estimação na conversa.                    Acácio resolveu intervir:
— Claro, Nabuco, a questão é sempre mais profunda. Sei que você ultimamente andou visitando as páginas de Erasmo, em Elogio da loucura; as de Santo Agostinho, em A cidade de Deus; as de Aristóteles, em Ética a Nicômaco, e as de Cícero, em Dos deveres. E Utopia é, antes de tudo, uma reflexão sobre a política.
— Miau… shzzzf… miau… shfzzz… miau…
Acácio interveio:
— Castilho, Nabuco está nos alertando para o risco da soberba, pedindo que eu cite esta passagem de Utopia: “Essa serpente infernal se agarra qual rêmora ao peito dos mortais e retarda o avanço para uma vida melhor. Visto que a soberba está demasiado entranhada na natureza humana para ser arrancada com facilidade…”.
Castilho, um pouco confuso, interrogou:
— E poderemos viver num mundo utópico, sem soberba?
Nabuco olhou para Acácio, como se lhe concedendo o direito de resposta.
— O mundo sempre nos leva aos prazeres e estes tendem a ser “criações artificiais”, podendo até proporcionar uma “satisfação espúria” para uma minoria, mas ficam bem longe da verdadeira felicidade, a felicitas, esta sim objetivo da vida utopiana, acessível a todos.
— …
Nabuco complementou:
— Shfiii… shfzzziii… Miau…. shfziifizzz… Miau…
— Concordo, Nabuco — disse Acácio —, a narrativa de More sobre a ilha de Utopia é um incrível feito da imaginação, onde lá se vive de acordo com os preceitos da natureza. Refeições coletivas, palestras antes do amanhecer, eliminando a privacidade e o individualismo. Todos focados nas aspirações humanas autênticas, como se num mosteiro.
Silêncio na sala. Companheiro resolveu, então, propor a Castilho e a Nabuco:
— Que tal se, a partir de hoje, nós três nos mudássemos para Utopia? Lá seríamos os novos macarianos!
Nabuco eriçou o pelo, afiou as unhas. Castilho reuniu seus pertences e, antes de ganhar a rua, confidenciou-lhes:
— Tenho que pensar melhor, embora reconheça “sem dificuldade que há muitas características naquela república utopiana que eu de fato desejaria, mais do que aguardaria, ver em nossas próprias cidades”.

          Fonte: Livro Utopia, de Thomas More, tradução de Denise Bottmann (São Paulo: Companhia das Letras, 2018).

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes