quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
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Tudo pela curtida: o risco ético da comunicação pública na era da IA

Todos os dias uma enxurrada de absurdos invade a comunicação pública brasileira. A busca por curtidas e engajamento parece não conhecer limites e na ânsia por viralizar gestores e equipes de comunicação ultrapassam fronteiras éticas e estratégicas que deveriam ser inegociáveis.

 

Há algo de alarmante no fato de uma prefeitura, uma instituição que representa o Estado e deveria pautar-se pela transparência, ter publicado em sua página oficial um vídeo criado por inteligência artificial, simulando pessoas para comunicar o pagamento de servidores. O vídeo mostra um casal sorridente em um quarto decorado com balões e ursos de pelúcia, remetendo à estética da famosa postagem do pedido de namoro feito pelo jogador Vinícius Júnior à influenciadora Virgínia Fonseca, terceira mulher brasileira mais seguida no Instagram, com mais de 53 milhões de seguidores. O conteúdo original ultrapassou 10 milhões de curtidas e 1,2 milhão de comentários.

 

Essa estética não surgiu por acaso. Há poucos dias o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, cometeu erro semelhante ao tentar homenagear o Dia dos Professores com uma imagem inspirada no mesmo post. O conteúdo, pensado para ser criativo, acabou se tornando motivo de piada e constrangimento. É um exemplo didático de como o marketing político, quando desconectado de propósito e coerência, se converte em paródia. O que deveria ser comunicação de resultado transforma-se em teatro digital.

 

O vídeo da prefeitura, contudo, é um caso ainda mais grave, pois se trata de comunicação institucional. Não é apenas um erro de linguagem, mas uma falsificação simbólica. As imagens foram fabricadas, banalizando a comunicação pública, que deixa de informar para encenar, criando um simulacro de eficiência e empatia.

 

Em democracias consolidadas a comunicação pública cumpre função pedagógica e republicana: presta contas, informa, aproxima o cidadão da gestão e constrói confiança. O discurso visual que exalta “o amor no ar” e “o dinheiro na conta” é mais do que um erro de tom, é a estetização da política, em que a narrativa visual ocupa o lugar do conteúdo informativo. A comunicação pública não deve disputar curtidas, mas credibilidade, e esta se constrói com fatos, não com ficções.

 

A inteligência artificial pode e deve ser usada pelo Estado, mas com responsabilidade. O que não se pode admitir é seu uso para gerar vídeos sobre pessoas reais, em ações ou falas mentirosas. A inovação é bem-vinda quando amplia a transparência, jamais quando a encobre.

O caso da prefeitura, portanto, é um sintoma da crise ética e simbólica da comunicação política contemporânea, cada vez mais ávida por resultados imediatos no ambiente digital.

 

Por Vanessa Marques- jornalista

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