O vídeo gravado e divulgado pelo prefeito Alyson Bezerra logo após ter recepcionado a Polícia Federal (PF), em sua casa, por estar entre os principais alvos de mandados de busca e apreensão de uma operação deflagrada pela própria PF e a Controladoria-Geral da União (CGU), onde o objetivo é desarticular um suposto esquema criminoso especializado em fraudes licitatórias e desvio de recursos públicos federais destinados à rede pública de saúde segue um roteiro bastante conhecido na comunicação política: o da vitimização combinada com o discurso eleitoral.
Logo no início, o prefeito tenta construir uma imagem de tranquilidade e pureza moral ao afirmar que “não tem compromisso com o erro”, que está “em paz” e que recebeu a Polícia Federal “com cordialidade”. Esse movimento não é aleatório. Trata-se de uma estratégia clássica de humanização e neutralização da gravidade do fato, deslocando o foco da investigação para sua postura pessoal. O objetivo é simples: fazer o público prestar mais atenção no comportamento do investigado do que no objeto da apuração.
Na sequência, o discurso é levado para o campo político. Ao afirmar que a investigação ganha visibilidade agora por ser ano eleitoral e porque ele estaria “despontando em primeiro lugar”, o prefeito sugere que não é alvo da Polícia Federal por indícios concretos, mas por causa do cenário político. Assim, a investigação deixa de ser apresentada como um procedimento institucional e passa a ser enquadrada como uma forma de perseguição.
Esse tipo de narrativa é previsível. Todo político investigado em período eleitoral tenta relacionar o fato ao calendário político, pois isso ajuda a construir a ideia de que está sendo atacado por ser forte, e não por haver uma denúncia específica. É uma forma de blindar a própria imagem antes que a população faça a pergunta central:
Se não há problema, por que a Polícia Federal está investigando contratos da saúde?
Outro ponto relevante é o uso intenso de elementos emocionais: fé, Deus, família, coragem, determinação. Esses recursos cumprem uma função clara, afastar o debate do campo técnico e levá-lo para o campo simbólico. O discurso fala muito sobre valores pessoais e pouco sobre os fatos administrativos.
Em nenhum momento há uma explicação objetiva sobre o conteúdo da investigação. O prefeito menciona que se trata de um processo de 2023 e cita a existência de um sistema de controle, mas não detalha tecnicamente:
quem contratou,
quem forneceu,
o que foi entregue,
se houve sobrepreço,
se houve material não entregue.
Em vez disso, transforma o episódio em um ataque ao seu projeto político, desviando o foco do que realmente importa: a gestão dos recursos públicos.
É importante deixar claro: investigação não é condenação. O fato de haver apuração não significa culpa.
Mas também não pode ser tratado como mera “coincidência eleitoral”. A Polícia Federal não age com base em pesquisas, e sim em indícios, auditorias e informações encaminhadas por órgãos de controle.
O que se vê no vídeo é:
tentativa de se colocar como vítima;
tentativa de transferir o debate para a política;
tentativa de transformar a investigação em ataque pessoal;
tentativa de desqualificar a denúncia pelo momento em que ela ocorre.
Isso não esclarece. Isso politiza o problema.
E quando um gestor politiza uma investigação, ele não está defendendo a administração pública, está defendendo a própria imagem.
O que a sociedade precisa não é de discurso emocional, mas de respostas objetivas:
Quem contratou?
Quem recebeu?
O que foi entregue?
Houve sobrepreço?
Houve material não entregue?
Fé é importante. Família é importante.
Mas, na gestão pública, transparência se prova com documentos, não com narrativa.
O caso exige esclarecimentos técnicos, não enquadramento político. Porque, no fim das contas, não está em análise apenas uma pessoa, mas a forma como recursos da saúde pública foram utilizados. E isso é sério demais para ser reduzido a um discurso de vitimização eleitoral.
Por Joyce Moura – jornalista




