terça-feira, 27 de janeiro de 2026
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Quando a investigação vira discurso: uma análise do vídeo de Alyson Bezerra

O vídeo gravado e divulgado pelo prefeito Alyson Bezerra logo após ter recepcionado a Polícia Federal (PF), em sua casa, por estar entre os principais alvos de mandados de busca e apreensão de uma operação deflagrada pela própria PF e a Controladoria-Geral da União (CGU), onde o objetivo é desarticular um suposto esquema criminoso especializado em fraudes licitatórias e desvio de recursos públicos federais destinados à rede pública de saúde segue um roteiro bastante conhecido na comunicação política: o da vitimização combinada com o discurso eleitoral.

Logo no início, o prefeito tenta construir uma imagem de tranquilidade e pureza moral ao afirmar que “não tem compromisso com o erro”, que está “em paz” e que recebeu a Polícia Federal “com cordialidade”. Esse movimento não é aleatório. Trata-se de uma estratégia clássica de humanização e neutralização da gravidade do fato, deslocando o foco da investigação para sua postura pessoal. O objetivo é simples: fazer o público prestar mais atenção no comportamento do investigado do que no objeto da apuração.

Na sequência, o discurso é levado para o campo político. Ao afirmar que a investigação ganha visibilidade agora por ser ano eleitoral e porque ele estaria “despontando em primeiro lugar”, o prefeito sugere que não é alvo da Polícia Federal por indícios concretos, mas por causa do cenário político. Assim, a investigação deixa de ser apresentada como um procedimento institucional e passa a ser enquadrada como uma forma de perseguição.

Esse tipo de narrativa é previsível. Todo político investigado em período eleitoral tenta relacionar o fato ao calendário político, pois isso ajuda a construir a ideia de que está sendo atacado por ser forte, e não por haver uma denúncia específica. É uma forma de blindar a própria imagem antes que a população faça a pergunta central:

Se não há problema, por que a Polícia Federal está investigando contratos da saúde?

Outro ponto relevante é o uso intenso de elementos emocionais: fé, Deus, família, coragem, determinação. Esses recursos cumprem uma função clara, afastar o debate do campo técnico e levá-lo para o campo simbólico. O discurso fala muito sobre valores pessoais e pouco sobre os fatos administrativos.

Em nenhum momento há uma explicação objetiva sobre o conteúdo da investigação. O prefeito menciona que se trata de um processo de 2023 e cita a existência de um sistema de controle, mas não detalha tecnicamente:

quem contratou,

quem forneceu,

o que foi entregue,

se houve sobrepreço,

se houve material não entregue.

Em vez disso, transforma o episódio em um ataque ao seu projeto político, desviando o foco do que realmente importa: a gestão dos recursos públicos.

É importante deixar claro: investigação não é condenação. O fato de haver apuração não significa culpa.

Mas também não pode ser tratado como mera “coincidência eleitoral”. A Polícia Federal não age com base em pesquisas, e sim em indícios, auditorias e informações encaminhadas por órgãos de controle.

O que se vê no vídeo é:

tentativa de se colocar como vítima;

tentativa de transferir o debate para a política;

tentativa de transformar a investigação em ataque pessoal;

tentativa de desqualificar a denúncia pelo momento em que ela ocorre.

Isso não esclarece. Isso politiza o problema.

E quando um gestor politiza uma investigação, ele não está defendendo a administração pública, está defendendo a própria imagem.

O que a sociedade precisa não é de discurso emocional, mas de respostas objetivas:

Quem contratou?

Quem recebeu?

O que foi entregue?

Houve sobrepreço?

Houve material não entregue?

Fé é importante. Família é importante.

Mas, na gestão pública, transparência se prova com documentos, não com narrativa.

O caso exige esclarecimentos técnicos, não enquadramento político. Porque, no fim das contas, não está em análise apenas uma pessoa, mas a forma como recursos da saúde pública foram utilizados. E isso é sério demais para ser reduzido a um discurso de vitimização eleitoral.

Por Joyce Moura – jornalista

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