sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
InícioArtigosPolíticos sob ataque: as redes e as ruas contra a PEC da...

Políticos sob ataque: as redes e as ruas contra a PEC da Blindagem

O jogo político brasileiro é complexo e, em geral, pouco transparente. Um exemplo é a chamada PEC da Blindagem, que impede a abertura de processos criminais contra políticos sem autorização do Congresso Nacional. A dinâmica política nesse caso se revela em três dimensões: a institucional, marcada por negociações de bastidor; a digital, que mobiliza a opinião pública em tempo real; e a simbólica, na qual artistas, influenciadores e movimentos culturais conferem densidade moral às disputas.

 

A proposta foi aprovada por 344 votos a favor e 133 contrários na Câmara. Logo em seguida, as redes sociais se encheram de críticas à matéria e aos parlamentares que a apoiaram. Muitos recorreram às próprias redes para explicar seus votos, alguns até pedindo desculpas.

 

Em vídeo, a deputada Silvye Alves (União-GO) afirmou ter sido pressionada e anunciou intenção de deixar o partido. O deputado Pedro Campos (PSB-PE) também recorreu às redes para explicar seu voto. Essa reação evidencia como a opinião pública digital se converte em instrumento de constrangimento imediato.

 

A discussão sobre a PEC somou 1,6 milhão de menções, segundo levantamento da Bites. A publicação da deputada Érica Hilton (PSOL-SP) teve 411 mil curtidas e 5,5 milhões de visualizações contra a proposta. O cantor Caetano Veloso também criticou o projeto, alcançando 297 mil curtidas e 3,1 milhões de visualizações. De acordo com pesquisa da Quaest, 83% das menções coletadas foram negativas à PEC da Blindagem, que nas redes ganhou o apelido de “PEC da Bandidagem”.

 

No domingo (21), a indignação transbordou das telas para as ruas. Em São Paulo, 42,4 mil pessoas se reuniram na Avenida Paulista. No Rio de Janeiro, 41,8 mil ocuparam a orla de Copacabana, em ato marcado por apresentações artísticas.

 

Essa combinação de redes e ruas gerou impacto direto no Senado. O presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Otto Alencar (PSD-BA), anunciou que pautará a PEC “para sepultar de vez o assunto”. A articulação já reúne maioria para rejeitar a proposta tanto na CCJ quanto no plenário.

 

O episódio revela uma inflexão histórica: a política, antes guiada pelo compasso lento das negociações internas, tornou-se refém do tempo real das redes sociais e das ruas. Hoje, o cidadão conectado não apenas recebe informações, mas cria, compartilha e amplifica narrativas que podem constranger diretamente seus representantes. Surge, assim, uma nova forma de “prestação de contas digital”, em que parlamentares se veem obrigados a reagir à indignação coletiva.

 

Se o Senado enterrar a PEC da Blindagem, como tudo indica, será menos por convencimento interno e mais pela força de uma mobilização virtual e presencial, que redefine os limites da representação. O desafio é compreender se essa nova dinâmica fortalece a democracia, ampliando a accountability dos eleitos, ou se aprofunda uma cultura de instabilidade, em que decisões legislativas oscilam ao sabor da indignação momentânea.

 

Vanessa Marques

Jornalista, professora e palestrante. Mestre em Comunicação pela Universidade de Valência (Espanha) e pós-graduada em Economia e Ciência Política. Atua há 20 anos na comunicação política, sendo 13 anos na Câmara dos Deputados.

 

Foto: Amanda Perobelli/Reuters

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes