sábado, 31 de janeiro de 2026
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Pílulas para o Silêncio (Parte CLXXII)

 

Clauder Arcanjo*

 

(Frédéric Bazille, de Renoir)

 

Releu A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, porque há dias estava necessitado de valorizar a vida. 

Quando virou a última página da novela, viu-se diante da dúvida de sempre: “Ao fim de tudo, quem será o meu Guerássim?”. 

 

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Era tão crédulo que chegava a ponto de acreditar em todas as promessas de campanha. 

Na hora de manifestar seu voto, sozinho na urna, resolvia votar em branco. “Melhor não prejulgar nenhum desses valorosos cidadãos!” 

 

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Acordou tão tomado de ideias, tão acossado pela musa, que a pena vibrava na escrivaninha. 

Pela manhã, diante da pulsão da poesia, o primeiro verso — mal colocou o olho lírico na página — recuou. Ao persistir, o projeto da estrofe atrapalhava-se e, com pouco, tudo murchou. 

Final da tarde, à luz do crepúsculo, a decisão de migrar para o conto. Com as personagens a bater-lhe à porta, ele, a julgar-se ficcionista, montou no cavalo alado da prosa; no entanto, num ir e vir indeciso, logo concluiria que optara por um alazão peado. 

Na madrugada, a insônia revelou-se fiel companheira. Ao abrir as páginas da sua última obra, tão festejada pelos críticos amigos, concluiu: 

— Nem são críticos, muito menos nunca foram verdadeiros amigos meus. 

 

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Ligou para o presidente da Academia de Letras e apresentou seu modelo para a seleção dos novos imortais:

— Presidente, é uma prova simples: dê uma caneta e uma folha em branco para cada um dos pretendentes e passe para eles um ditado. Ao final, basta selecionar aquele que melhor… 

O telefone ficou mudo no outro lado da linha. 

 

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Novidade revolucionária em casa de apaniguados é coisa recebida com raiva, bala e palavrão. 

 

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Até quando orava, ele pecava. Trocava o teor de todas as orações, a fim de que elas clamassem pelo fiel cumprimento dos seus inconfessos desejos. 

Em seu leito de moribundo, ao vir o pároco lhe dar a extrema-unção, ele, arfando às vascas da morte, anunciou ao representante de Cristo: 

— Já falei com Pedro e todos os Arcanjos: se Cristo não me der a janela na viagem para o Céu, seu padre, Lutero tem toda razão. 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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