sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXXVIII

A palavra é dúbia; o muro, alto. A raiva veste-se de nova; a pena, antiga. Ergo os braços para os céus, mas as nuvens escondem-me o sol. Tento levantar-me, encontro-me de joelhos, porém a culpa me tiraniza e permaneço atado ao chão frio.
Luto em construir argumentos; a cabeça, mais uma vez, turva-se. Embaralho-me comigo e com os meus próprios fantasmas. Num último esforço, inflo o peito e forço um grito. O protesto não se escuta; como se me tamponassem os pulmões, a garganta, o espírito.
Cansado, entrego-me ao destino. Velho, sabido e consabido. Desde que me entendo por gente. Infelizmente prisioneiro, eterno prisioneiro de mim mesmo. Castelo sem brilho.

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O meu lar sem ele não comporta o riso. A rede parada, a sua voz suspensa no vazio do final da tarde. Os pardais a revoarem a esmo, como se testemunhas merencórias do crepúsculo.
Na cozinha, ouço alguém me chamar. Então me dirijo ao meu canto e lhe rogo a companhia à mesa.
O vento assobia na fresta da porta, e sinto a sua despedida terrena; enquanto na minha mente explode a gaiatice de mais uma tirada dele: “E o meu café, Menino do Catecismo? Ponha pouco adoçante, ouviu?”
Preparo-lhe à mesa, com a xícara disposta no seu lugar preferido. “Sinta-se em casa, Cearense!”, ele brinca.
E eu, com lágrimas nos olhos, rogo a Deus:
— Senhor, faça com que o amigo Chico se sinta em casa.

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Duvido da felicidade que brota no berço da força, do menoscabo, da tirania.
Desconheço (e não respeito) a ventura sobre o corpo e a alma dos humilhados, dos preteridos, dos ofendidos.
Não me atrai a riqueza que se ampara na supressão do outro; prefiro a alcunha de pobre ridículo do que a de venal.

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O apanágio do pior dos desgraçados é saber que o vizinho também já se encontra marcado pela desgraça.

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Se o destino te castigar, levanta-te e entrega novamente a tua alma. Se, por acaso, a mão punitiva da lei macular a tua honra, redobra a tua força e soergue-te ainda mais teimoso e altivo, sem mostrares ódio nem fúria ou mágoa.
E, antes de te recolheres, lê e relê esta estrofe, versos do poema “Invictus”, do bardo inglês William Ernest Henley, na tradução de Luciano Maia: “Não me importa se estreita é a saída/ E a carga punitiva que a empalma;/ Sou o único senhor da minha vida:/ Só eu ordeno aonde irá minh’alma.” E, na manhã seguinte, reassume o posto de capitão da tua alma.

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Clauder Arcanjo

O instante do poema é o átimo do vazio, o lugar da poesia é uma mansarda sobre o nada. Enquanto os versos que me socorrem trazem-me, ao sangue desolado, a fúria incognoscível e o consolo final de um condenado.
“Poesia é quando a pedra é pluma, e a pluma é pêssego, e o pêssego é pássaro, e o pássaro é ponte entre o poleiro e o canto. Poesia é quando estou sozinho e só me resta o candeeiro das palavras. Poesia é palavra”, ensina-nos o luminoso Hildeberto Barbosa Filho.

“Eles quiseram falar mas não conseguiram. As lágrimas estavam em seus olhos. Os dois eram pálidos e magros; mas nesses rostos doentes e pálidos já raiava a aurora de um futuro renovado, pleno de ressurreição e vida nova. O amor os ressuscitara, o coração de um continha fontes infinitas de vida para o coração do outro.”
(Fiódor Dostoiévski, em Crime e castigo)

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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