sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXXVII)

Nau moribunda em mar encapelado

Quem fala em flor não diz tudo.
Quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.
(Ferreira Gullar, em “A bomba suja”)

Onde ele entrava a coisa ganhava jeito de balbúrdia. Se se filiava a um partido político, este logo assumia a bandeira da anarquia e do desgoverno. Se resolvia participar de um jogo, as regras se embaralhavam de tal modo que, com pouco tempo, a única que restava em pé era a do salve-se quem puder.

Ao chegar à universidade, optou pelo direito. Na condição de calouro, promoveu uma greve de ocupação.
No período seguinte migrou para a filosofia. Só se satisfez na seara de Nietzsche.
Hoje ele passa os dias a filosofar chamegos na cama de Mariazinha, provedora do seu destino de manicaca assumido.

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Possídio Chalupa sempre navegou em mar de escolhos e de ondas furiosas. O barco rangia sob as intempéries, sofria, penava, mas voltava altaneiro para o seu porto seguro.
Certa primavera Possídio saiu para pescar em tempo de vento brando. As velas não inflavam, o timão não se mexia, a bússola inerte na calmaria.
Sua pequena nau nunca mais voltou para casa; diz a lenda que afundou, pois Possídio só sabia navegar em mar encapelado.

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Cansado de apanhar e de ser perseguido por qualquer zé-ninguém, Dalvinho Biquara resolveu se armar. De início comprou canivete, punhal e revólver. Depois, vestimenta de cangaceiro e sapato de dura sola.
Mês passado entrou no Mercado Público arrotando arenga e brabeza:
— Tem algum valente aqui?
Clodovão Sete Ventas levantou-se do tamborete ao canto, acunhando os bagos avantajados, e perguntou:
— Para enfrentar quem, seu Biquara?
Dalvinho sentiu um frio na espinha e o mijo a escorrer nas calças. Mais do que depressa informou:
— É porque estou precisando de um cabra desses para ser o meu professor.

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Em terra de otimistas coruja cega voando é julgada como uma nova espécie de morcego.

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Pletorino Canhestro era tão maníaco pelos seios das mulheres que, certa manhã, já de pileque, se enamorou por uma melancia largada debaixo de um pedaço de chita.
— Eu te darei o céu, minha rainha!
O Baltazar, bodegueiro de Licânia, o tangeu para a rua, sob vassouradas e palavrões:
— Vá ser tarado em outra freguesia, condenado!

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Pedia, antes de dormir, o mingau da noite, mas recebia religiosamente um copo de água morna. Cansado e crente na ruptura de paradigma, teoria que lera num livro estoico de autoajuda, resolveu mudar de estratégia e fazer um pedido diferente.
Na noite seguinte, clamou apenas por um caneco d’água. Veio o silêncio, seguido de uma tremenda sova e por um desabafo tonitruante:
— Desistiu do mingau, homem de pouca fé? Ninguém se faz merecedor daquilo pelo qual não se luta ferrenhamente.
Foi dormir faminto. E, com as costas em fogo, concluiu:
— Deve ser seguidor de outro filósofo de ocasião.

Do dia nada sei
E a própria noite azul
Me fecha a sua porta
(Sophia de Mello Breyner Andresen, em “Canção de matar”)

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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