sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXIX) – Clauder Arcanjo

Na contradição me afirmo

Foto “Tiradentes”, de Marcelo Visentin.
@photomvisentin

(…) a vida flui por entre escombros, não há linha reta nem circularidade garantida, o caminho se faz de muitos modos, avançando e recuando, contornando e atacando outra vez, numa tentativa desesperada de furar o bloqueio, seja ele qual for, onde se esconde o rato silvestre da poesia, aquele ser que se disfarça no que é para melhor ser o que não mais será.

(Juremir Machado da Silva, em Anjos da perdição)

 

Pestílio Bulhões acordou com uma ideia para um poema na cabeça. Na certa, o mote nascera em meio ao sonho da noite.

Pegou da caneta e do papel e, quando ia escrever o primeiro verso, lembrou-se de consultar se alguém havia lhe telefonado. Pestílio levou a manhã inteira retornando as ligações, e o poema se perdeu no fio da memória.

 

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Veneranda Constância, ao ouvir uma velha canção no rádio, surgiu-lhe um tema para um conto. Aflita, largou do crochê, desligou o rádio e correu para a escrivaninha.

Ao sentar-se, deu pela presença de um bloco de notas antigo. Resolveu revisitar o que ali escrevera há tempo. Constância leu, releu, sorriu, chorou… E o conto se foi na emoção do fim da tarde.

 

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— Meu mundo por uma contradição! Arre! Estou farto e com asco dos sabidinhos de plantão.

Seu Plaxerxes Antígono esbravejava frente à Matriz contra os doutos de Licânia, após mergulhar na pinga e limpar os beiços com a poética de Fernando Pessoa.

— Senhor Deus dos desgraçados!/ Dizei-me vós, Senhor Deus!/ Se é loucura… se é verdade/ Tanto horror perante os céus?! — recitou, em assomos de revolta.

— Ei, seu Antígono, esse trecho é do poema “O Navio Negreiro”, de Castro Alves! — advertiu-o Mirandinha.

— Vá à merda, seu sabidinho! — devolveu-lhe o velho Plaxerxes, já misturando Lisboa com a Bahia.

 

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Luís da Silva se entregara, de corpo e alma, à concepção de um romance. Seriam páginas nascidas da pena da angústia, recheadas com os traumas da infância. Tudo tramado com dor e veraz melancolia.

Tão logo fechou a primeira parte, Luís conheceu Cecília. Era um cair de noite em que os cães uivavam em cio, e as viúvas se lastimavam pela solidão da província. Naquela noite, Luís banhou-se demoradamente, tirou do cabide a camisa mais nova, perfumou-se e saiu para a pracinha do Poeta. Sentado à distância, lá roeu as unhas de ciúme ao ver Cecília nos braços do bonitão Edgar Rodrigues.

— Ordinário!

Ao retornar para o seu tugúrio, alta noite, Luís da Silva rasgou todas as páginas que já escrevera.

— Ordinário!

 

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Quando se disfarçou de palhaço, a plateia chorou. Ao se vestir de monarca, a população se rebelou. Hoje, velho e alquebrado, quis se entregar às águas escuras do destino, mas os Céus o abençoaram, devolvendo-lhe o riso, o poder e a força dos anos.

 

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Sonhou em ser soldado, desistiu ao saber da guerra.

Pensou em servir à medicina, abdicou ao ser informado das doenças e das dores.

Namorou com a advocacia, desistiu tão logo teve contato com a hermenêutica das leis.

Hoje, entre uma desistência e outra, abraçou com ardor o ofício dos nefelibatas. Apesar de, de quando em vez, reclamar da perigosa altura das nuvens.

 

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Nobreza de malandro é pugnar pelo socialismo para os ganhos e rezar pela caridade plena para a quitação das dívidas.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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