sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXV) – Clauder Arcanjo

Foto: Regato, de Marcelo Visentin.

Do dia nada sei

E a própria noite azul

Me fecha a sua porta

(Sophia de Mello Breyner Andresen, em “Canção de matar”.)

 

Aproximou-se, pálida como a manhã que já se fora, tímida como o som do regato que testemunhava o nosso reencontro.

De início, quis se declarar, as palavras não a socorriam. De mãos atadas ao silêncio, ela fitou a placidez do instante, serenado em meus lábios trêmulos, e se fez entender, a despeito de sua declaração ágrafa e silente.

Demo-nos as mãos e saímos para assistir ao cair da tarde rubra. Apesar das nuvens pesadas sobre o horizonte.

 

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A novidade quis montar seu circo na esplanada da manhã. No entanto, as crianças, cheias de alegria, pouco ligaram para aquele velho baú de artimanhas. O palhaço ainda insistiu com uma piada recauchutada, no entanto a meninada riu da sua teimosia.

Naquela província, concluiu toda a trupe, a vida sempre fora uma festa.

 

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O sino da província dobrara durante horas. A morte de Messias Augusto deixava a todos órfãos. Para alguns, devido à falta que ele faria no carteado. Para outras, dada à sua perícia no elogio das damas. E, para uns poucos, à sua capacidade de plantar alegria nas noites em que o Maligno assustava o sono dos filhos de Licânia.

— Quem agora, meu Pai, vai zelar pelos azarões nas cartas, pela beleza de nossas pretensas princesas e pelo descanso dos nossos corajosos varões! — bradava pelas ruas o choroso bêbado Alcebíades.

 

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Marialda Perpúcio se incomodava sobremodo com o passaredo:

— Cantam, mas sujam demais o piso da minha varanda.

Certo dia, quando Marialda se viu solitária e tristonha, ela contou tão só com a companhia dos pássaros.

 

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Ao ler Machado de Assis o fazia com mofa e ironia:

— Não deixarei a tua ironia roer as frias verdades do meu cérebro, Bruxo do Cosme Velho!

Ao mergulhar na prosa de Lima Barreto, alardeava:

— Não seremos o país do futuro se não dermos fim a: “Essa atonia da nossa população, essa espécie de desânimo doentio, de indiferença nirvanesca por tudo e todas as coisas cercam de uma caligem de tristeza desesperada a nossa raça e tira-lhe o encanto, a poesia e o viço sedutor de plena natureza.”.

Na madrugada, ao reler os próprios escritos, apático, mergulhava no vale do silêncio. Do profundo silêncio.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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