sábado, 31 de janeiro de 2026
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Pílulas para o Silêncio (Parte CCXLV)

Clauder Arcanjo*

(“Madona Sistina”, de Rafael Sânzio)

Sabedoria de balcão

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.
(Fernando Pessoa, em Livro do desassossego)

Somava os dias pelos risos colhidos da face de Isaurinha Torquato. Se ouvia uma nova piada, Salustiano Quintão corria depressa para a janela da amada e, entre gestos e bocas, contava-lhe o gracejo. Se lhe falavam de uma nova dança, ele cuidava de aprender os passes e levava-os ligeiro ao conhecimento dela. Mal sabia ele que a herdeira dos Torquatos achava graça não do chiste ou das manobras, mas, sim, dos estranhos modos do sujeito.
— Salvei o meu dia! Isso, sorria, Isaurinha!

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Domava a língua com extrema dificuldade. Até que, certa tarde, ao defender os brios de Licânia perante um avantajado desconhecido, viu-se sem os dentes da frente.
Professam os licanienses que aquela surra conteve de vez o seu destempero verbal.
— Povo de Licânia, devemos pesar as palavras diante do peso do inimigo!

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Um motorista de Licânia denunciou:
— Todos os caminhos me enganam e me trazem de volta a Licânia. Se tomo o rumo norte, o sul me atrai na curva seguinte; e, com pouco, vejo-me na Praça do Poeta. Se a encomenda é para o lado oeste, o leste, quando menos espero, conduz o meu guiar; léguas depois, o Mercado Público surge à minha frente. Hoje, confesso, só aceito encomendas para Licânia. Sendo assim, não me atraso nem jamais me chateio.

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Saída para o trabalho de preguiçoso é rede funda. Conselho de bagunceiro é piada sobre o colo arfante e perfumado da filha virgem do açougueiro.

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Antes da primeira pinga, Borlô revelava-se um lorde: educado e polido. Depois da sexta, um bêbado chato: mal-amado e ladino. Ao final do dia, litro e meio no juízo, corria becos e vielas, revelando, perigosamente, todos os podres da província.

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No primário, aprendeu o abecedário. Nas ruas, o dicionário das palavras chulas.
No ginásio, apresentaram-lhe a filosofia dos mestres. Mas, a mente já resolvera seguir a sabedoria indigesta das ruas.

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“Dai a João o que é de João!”, professava João Gaulívio Cobre, o homem mais rico de Licânia.
O problema é que tudo era de João, segundo a crença do avarento Gaulívio Cobre.

Tudo quanto buscamos, buscamo-lo por uma ambição, mas essa ambição ou não se atinge, e somos pobres, ou julgamos que a atingimos, e somos loucos ricos.
(Fernando Pessoa, em Livro do desassossego)

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