segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
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Pílulas para o Silêncio (Parte CCLV)

 

Clauder Arcanjo*

 

 

 

 

 

 

 

 

(Pintura “Notre-Dame pela manhã”, de Edouard Cortès)

 

Vozerio

 

“As verdades que mais nos importam vêm sempre em meias palavras, só os mais atentos as captam por inteiro.”

(Baltasar Gracián, em A arte da sabedoria)

 

Inquieta-me este silêncio de vozerio. Silêncio permeado de gritos, de urros, de bravatas.

Ganho a rua, e tal balbúrdia segue do meu lado: não me deixa sentir o meu eu interior, nem colabora com a minha necessidade premente de me sentar ao meu lado e de conversar, para me reencontrar: comigo e com as minhas dúvidas.

Será que tal bagunça oca cessará? Ou os homens se cansaram de si próprios e batem o tambor da algazarra tão somente para não terem o (des)prazer de escutar o vazio que já os consumiu?

Sim, como me inquieta este oco alarido.

 

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No relógio da noite, os ponteiros pararam, decepcionados com o despropósito do uso do tempo.

 

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Ousarei ser Dom Quixote, ao tempo em que tantos fogem do Idiota. Tudo isso sequer me faz um Dom Casmurro, Quincas Borba!

 

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Soletrei um verso tão disforme que o cachorro do vizinho protestou em uivos líricos. Evoé! Au, au, au!…

 

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Descanso eterno de falecido é espólio sem brigas.

 

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O bolo confeitado sobre a mesa de jantar, em abandono, sinalizava o fim iminente daquele matrimônio.

 

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Quando se aposta somente no acaso, ou o fim se apresenta próximo ou já desistimos da construção do nosso livre-arbítrio.

 

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Político de ocasião é aquele que espera a posse dos governantes para, só então, cerrar fileiras nos programas da situação.

 

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Ninguém consegue suportar, sem a máscara do autoengano, o mau cheiro que exala da vala da autoconsciência.

 

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Há a ameaça de uma guerra na Europa distante; enquanto, em nossas cidades, os jovens se matam diariamente num combate sangrento, sem audiência.

 

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Não conheci Dona Júlia. Júlia Pereira da Silva. Melhor, não a conheci pessoalmente.

Esta semana, Dona Júlia resolveu partir. Saibam todos que ficamos tristes. Eu, especialmente por sentir a saudade no lar e na voz de sua filha Fátima, de seu genro Anchieta e do neto João.

Sexta última, Dona Júlia voltou para a sua província: Conceição, na Paraíba. E, lá, fez-se semente.

Hoje sonhei com Dona Júlia encantada com o Paraíso: a conversar com seu Chico Leite, eterno companheiro, com os parentes, bem como a conhecer novos anjos. E, principalmente, a abençoar a família que aqui permanecerá, honrando vida tão digna.

Grato, Dona Júlia. Por Fátima, por Anchieta, por João e por todos os julianos e julianas que virão, pelos séculos e séculos. Amém.

 

“Não basta a substância, a forma também é necessária.”

(Baltasar Gracián, em A arte da sabedoria)

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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