sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Pílulas para o Silêncio (Parte CCCLXVII)

Clauder Arcanjo*

 

(Escultura Pietà, de Michelangelo)

Carta à mãe

 

Carta à mãe

 

Rio de Janeiro, 4 de setembro de 2024.

 

Queria o calor dos teus braços, mãe, mas me encontro distante. Aqui os lençóis não têm o teu cheiro, muito menos o afago do teu abraço.

Nesta cidade grande e impessoal, ouso saudar os transeuntes na rua, porém poucos me respondem. Como se um bom-dia representasse uma aproximação perigosa. Não te preocupes, continuarei fazendo o que bem nos ensinaste: tratar a todos com respeito e educação. Aquela tua máxima, “São filhos de Deus, únicos, e só por isso, meus filhos, merecem o nosso respeito”, ressoa sempre em meio aos meus atos.

Queria hoje, nestas horas em que me sinto tão triste, ouvir a tua palavra meiga, dizendo-me: “É puro, é santo, é milagroso e é bom!”. Fecho os olhos e transporto-me para junto de ti, mamãe, para a rua Mateus Mendes, 75. Deves estar agora na tua cadeira em Santana, rezando terços para que Maria guie os nossos passos.

Ontem, entre uma prece e outra pelos meus, não consegui conter as lágrimas. O mundo nos afasta e parece que seguiremos cada vez mais distantes um do outro. Na infância, papai nos colocava no seu jipe e seguíamos para a fazenda Eldorado. Os atoleiros eram a nossa odisseia, e torcíamos para o motorista não vencer o caminho. Carro atolado era sempre motivo de alegria para nós. Poderíamos descer, apreciar a aventura de retirar o veículo da lama. Enfim, nos verdes anos até a derrota se tornava festa.

Jantei a culinária da cidade grande, no entanto a vontade era me servir do teu café com leite, acompanhado de pão e manteiga. Deitei-me e pedi a tua proteção. Sem falar que roguei pela intermediação, junto aos céus, do nosso saudoso pai, o bom Zequinha, e de minha sogra, dona Cleyde. Confesso, minha querida Djanira, que eu preciso de vocês, não devo ter lá muito crédito junto ao Senhor.

Dormi a custo e, em plena madrugada, vi-me presa de um pesadelo atroz. “Deus do Céu, Pai Todo-Poderoso, afasta de mim esse cálice!”

Levantei-me, lavei o rosto e vi-me no espelho do quarto do hotel. As olheiras denunciavam a minha terrível aflição.

Voltei para a cama e, em posição fetal, abraçado ao travesseiro, imaginei-me no teu regaço. Piedade.

Somente assim serenei e dormi.

 

                    Nossa Senhora, me dê a mão

                    Cuida do meu coração

                    Da minha vida, do meu destino

                    Nossa Senhora, me dê a mão

                   Cuida do meu coração

                   Da minha vida, do meu destino

                   Do meu caminho

                   Cuida de mim

 

— A tua bênção, mãe!

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

 

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