quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
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Papa Leão XIV chega a Ancara para visita de seis dias à Turquia e ao Líbano

Gina Marques, correspondente da RFI na Itália

A visita à Turquia estava programada para maio deste ano e seria realizada pelo papa Francisco para celebrar os 1700 anos do Primeiro Concílio de Niceia. Porém, com a morte do pontífice argentino, a viagem foi adiada para ser feita pelo sucessor, que também irá ao Líbano.

No desembarque, o papa foi recepcionado pelo ministro da Cultura turco, Mehmet Nuri Ersoy.

“Há muito tempo aguardo esta viagem por causa do que ela significa para os cristãos, mas também é uma bela mensagem para o mundo inteiro”, disse o papa aos 80 jornalistas que o acompanharam no avião de Roma para Ancara.

Além de cerimônias na agenda do pontífice, constam encontros com autoridades civis, religiosas, conversas privadas com o presidente Recep Tayyip Erdoğan.

Dentro das colunas do monumental palácio presidencial de Ancara, ele precisará agir com cautela ao levantar a questão sensível dos direitos humanos e das prisões em massa de opositores e vozes dissidentes na Turquia. Ele também abordará a questão do lugar reservado aos não muçulmanos, visto que os cristãos do país continuam a lutar contra a desigualdade e um sentimento de exclusão.

Destaques religiosos da visita

A Turquia e o Líbano são repúblicas laicas majoritariamente muçulmanas. Na Turquia, país de maioria sunita, os cristãos representam apenas 0,2% da população de 86 milhões de habitantes. Já no Líbano, país com cerca de 5 milhões de habitantes, há aproximadamente o mesmo número de muçulmanos sunitas e de muçulmanos xiitas, cerca de 63%. Os cristãos representam aproximadamente 30% da população libanesa, a maior porcentagem de cristãos no mundo árabe. Além destas principais religiões, o país é também conhecido pela grande variedade de fés professadas, com cerca de 18 confissões religiosas identificadas.

Nesta sua primeira viagem internacional, Leão XIV também poderá afirmar sua visão de diálogo com o islã. No entanto, o tema predominante da visita será a unidade dos cristãos. Vale lembrar que foi o patriarca Bartolomeu I, primaz da Igreja Ortodoxa de Constantinopla, quem convidou o papa por ocasião do aniversário do Concílio de Niceia.

Esta viagem tem uma forte relevância para Leão XIV. Vale lembrar que ele é agostiniano. Seu brasão e lema papal se baseiam na figura de Santo Agostinho. O lema em latim “In Illo uno unum” significa algo como “no único Cristo somos um”. Um lema que propõe a união entre os cristãos.

Importância do Concílio de Niceia

Para entender a importância do Concílio de Niceia para o cristianismo é preciso recordar o imperador romano Constantino I no quarto século. Este imperador reconheceu a religião cristã no ano 313 com o Edito de Milão, que pôs fim às perseguições aos cristãos concedendo-lhes direitos iguais aos de outras religiões no Império Romano.

No entanto, havia uma controvérsia doutrinal que ameaçava interromper a paz no seu território. Para resolver as divisões teológicas dentro da Igreja, Constantino convocou, no ano 325, o primeiro concílio ecumênico, reunindo cerca de 318 bispos em Niceia, que hoje é a cidade de Isnik, na Turquia.

O Concílio definiu a fé na qual se baseia o cristianismo e que todas as Igrejas cristãs professam: o Deus revelado por Jesus Cristo é um Deus único, mas não solitário: Pai, Filho e Espírito Santo são um único Deus, ou seja, a doutrina da Trindade. Portanto, este Concílio estabeleceu várias bases doutrinárias, incluindo o Credo de Niceia, uma declaração ainda utilizada.

Na sexta-feira, às margens do lago de Iznik, Leão XIV se reunirá com líderes de várias Igrejas Ortodoxas e participará de uma oração ecumênica. Ainda não se sabe quais delegações das Igrejas Cristãs participarão do evento, especialmente se haverá um representante do Patriarcado de Moscou, a maior e mais poderosa comunidade da Igreja Ortodoxa, que, no entanto, está “em rota de colisão” com o Patriarcado de Constantinopla. A

A guerra na Ucrânia acelerou a ruptura entre os patriarcados de Moscou e de Constantinopla. O patriarca russo Cirilo, forte apoiador do presidente Vladimir Putin, não foi convidado para ir a Iznik.

Enquanto os católicos reconhecem a autoridade universal do papa como chefe da Igreja, os ortodoxos se organizam em Igrejas autônomas. Atualmente, o mundo ortodoxo parece mais fragmentado do que nunca.

Seguindo a doutrina agostiniana, Leão XIV manifesta sua preocupação com a unidade dos cristãos, entre eles os ortodoxos. Ao mesmo tempo, ele tenta conciliar as divisões entre as correntes internas da Igreja Católica, fracionada entre reformadores e tradicionalistas.

Viagem ao Líbano

No Líbano, Leão XIV vai se encontrar com o presidente Joseph Aoun e irá destacar o apelo pela paz. O papa também visitará mesquitas e igrejas e rezará no Porto de Beirute, em homenagem às mais de 200 pessoas que morreram na explosão de 2020.

Durante muito tempo, o Líbano foi considerado um modelo de convivência. No entanto, desde 2019 enfrenta uma grave crise que afeta todos os estratos da população: um empobrecimento generalizado, moeda extremamente desvalorizada e a guerra com Israel.

É neste contexto que o país se prepara para a visita de Leão XIV. As autoridades realizam de estradas, agora decoradas com cartazes que exibem a imagem do pontífice e mensagens como “o Líbano quer a paz”. Porém, essa paz permanece distante: apesar de um cessar-fogo estabelecido com o movimento islamista Hezbollah, Israel continua a bombardear território libanês.

A viagem do papa poderá, contudo, servir para evidenciar o trabalho de diversas organizações privadas — muitas delas de caráter religioso — que garantem à população serviços essenciais, como acesso à educação e à saúde.

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