quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
InícioArtigosO ALIENÍGENA (PARTE XXXIX)

O ALIENÍGENA (PARTE XXXIX)

Clauder Arcanjo*

 

O Pensador, de Auguste Rodin.

 

“Encerre, antes que seja tarde.”

Minha consciência pede (melhor, clama) que ponha um fim nesta noveleta sem brilho.

Recolho-me ao silêncio da página em branco e tento, juro que me esforcei, para dar cabo disso com o perfume do êxito.

Qual o quê?! Encerrar é tão ou mais difícil do que dar início a um prosear.

Há trinta e oito capítulos que, entre idas e vindas pelo sertão de Licânia, entre urros, vagidos, miados e latidos, à sombra da presença de um suposto alienígena (o que daria um quê de ficção científica aos meus escritos), estivemos juntos.

“Homem, você nos enrolou mais do que fabulou!”

Meu julgamento é mais terrível (e cruel) do que o mais severo dos críticos de rodapé das gazetas dominicais.

“Gazetas?!… Você não está no século XIX não, seu Arcanjo! Aliás, que de anjo nunca teve nada!”

— Peraí, assim não dá! Exijo respeito. Se não a mim, pelo menos tenham consideração com os meus personagens. Estamos na presença de mais de uma dezena deles: Federardo, Brizolete Hernandes, João Américo, Robertão Social, Paulo Bodô…

“Você foi enfiando gente, como se enfia peido em cordão. Os coitados entravam na história e já sumiam na trama seguinte. Enfim, coisa de amador!”

 

& & &

 

Revoltado, fecho esta página e resolvo reler o início de tudo. Sim, o que foi concebido há exatos nove meses. Esta novela foi um parto.

 

— Alguns juram, mas nunca creia em juras de licanienses, que a primeira aparição (ou seria o primeiro sinal?) se deu numa sexta-feira, 13. Outros alegam que tal data se perdeu na memória do medo, pavor que apaga tudo, inclusive a crença na força dos Céus.

— Vixe, Maria!

— Melhor, Federardo, é não colocar a mãe de Jesus no meio desta história.

— Concordo, Companheiro Acácio, continue.

Acácio ajustou os óculos, arregalou ainda mais os olhos, e se aproximou da cadeira em que o jovem Federardo a tudo ouvia, atento, mas já com uma certa dose de medo.

 

Então, o narrador não fui eu, foi o Companheiro Acácio. Atribuo, desta forma, todos os deslizes desta ficção a esse meu rabugento alter ego, que sempre se apropria das minhas narrativas, metendo-se e pondo tudo em…

— Não venha jogar a culpa do seu fracasso nas minhas costas, seu filho de uma mãe!

— Olha o respeito, Companheiro! Não se esqueça de que Seu Zequinha está por perto, e ele não vai admitir maus modos com o seu…

— Calma, meus filhos. Só o tempo pode julgar uma obra — adverte o bom Zequinha.

 

& & &

 

Enquanto discutíamos, Goiaba e Nabuco resolveram reunir todos os presentes no alto do Serrote da Rola; para, de lá, observarem o pôr do sol licaniense.

— Tocamos para longe todos esses filhos de rapariga que estavam acabando com a nossa riqueza. Se eles continuassem, acabariam depressa com o nosso serrote, e nunca mais teríamos esta vista tão divina! — desabafou Baltazar do Bozó, poeticamente emocionado.

Goiaba e Nabuco ganiram e miaram seguidas vezes, tal qual um ângelus sertanejo.

De repente, diante de tanta beleza, todos aplaudiram o final do dia.

“E também o final desta história, por que não?”

Melior finis horribilis quam horror infinitus! — arremata João Américo, o protofilósofo de Licânia.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes