quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
InícioArtigosO alienígena (Parte XI)

O alienígena (Parte XI)

Clauder Arcanjo*

Pintura A Papillon, de Henriëtte Ronner-Knip.

 

Vários leitores protestaram, pedindo que eu trouxesse o cachorro Goiaba de volta a esta trama, inclusive restabelecendo a sua condição de herói canino.

Confesso que argumentei. Explicando a todos que o Goiaba teria um papel menor, um mero coadjuvante, apenas para reforçar uma cena antiga e, principalmente, recuperar a presença do Federardo, que, por falha minha, sumira desde o primeiro capítulo.

Qual o quê! Quanto mais eu defendia os meus argumentos de escriba, mais o pessoal reforçava os seus clamores:

“Goiaba! Goiaba!…”

Então, rendi-me.

Mas como farei?

Nem eu sei. Esta trama nasce como aquelas plantas que, milagrosamente, reverdecem no seio do deserto. Neste meu caso, no deserto das ideias fabulativas. Se o que narro resistirá ao tempo, crítico mais certeiro e impiedoso de todos, só os anos dirão. No momento, atendo aos pleitos e sigo em frente.

Pois muito bem, vejamos.

 

& & &

 

Eis que surge um novo personagem: Porfírio Costabrava Príapo.

Porfírio, conhecido pelas meninas do Caneco Amassado pela sua virilidade incomum e pela tez de ébano, saía do prostíbulo de Licânia quando deu pela presença do Goiaba, seguido à distância pelo Federardo. Ambos na corrida do medo.

Porfírio, do alto da sua coragem advinda dos deuses da Mãe África, ordenou:

— Parem e me respondam: para onde vão? E o que os aflige?

Goiaba, tocado pela energia do medo, quase não conseguiu frear. Federardo, vindo logo atrás e não reduzindo a velocidade, foi contido por um safanão nas costas do mestre Porfírio. Este, de pronto, advertiu-o:

— Se o dono for um amedrontado, o pobre cão, fiel companheiro, também o será. Contenha-se, cabra frouxo! Seja digno! Aqui, Goiaba. Calma, calminha!

— Mas eu sou frouxo desde nascença. Deixe-me fugir! O alien…

Porfírio deteve Federardo segurando-o pela gola da camisa, enquanto assoviava notas de tranquilidade para Goiaba:

— Que cachorrinho lindo! Ui… ui… Deve ser tão valente quanto o cão de Ogum.

Goiaba, ao se sentir prestigiado, diminuiu os tremores das pernas e uivou baixinho:

— Auu!… Auuu!…

— Mais alto, mais alto! — incentiva Porfírio. — Cãozinho como você não deve temer nada nem ninguém. Vamos, mais alto!

— Au!… Au!… Au!… Au, au!…

Até Federardo sentiu-se mais encorajado. Porfírio, ele não sabia bem explicar o porquê, transmitia aos dois fujões a bravura que há pouco se perdera.

Nesse uivar daqui e incentivar do Porfírio acolá, Federardo e Goiaba acharam-se prontos a enfrentar os desafios que viessem.

Bastou o silêncio mostrar o seu rabo na sombra da árvore, debaixo da qual tudo aquilo se passava, para que…

— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…

Federardo resistiu dez segundos, apenas o suficiente para ordenar ao Goiaba:

— Parta para cima dele, Goiabão! Para cima dele!

O Goiaba, ao procurar por Porfírio Costabrava Príapo e perceber que o cabra já renunciara à sua tão propalada coragem, não contou até três (até porque, pelo que eu saiba, cachorro não sabe contar!) e… desabou de mata afora.

— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…

— Esperem por mim! — gritou, apavorado, o pobre Federardo.

— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…

E por mim, também!

Não quero mais saber desta novela. Tenho que salvar a minha pele.

Não adiantou de nada eu trazer o Goiaba de volta.

“E o seu compromisso com a literatura?!”

Quanto à literatura, leitor, que ela vá para… o quinto dos infernos.

— …uuuuuuu… Auuuuuuu… uuu…

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes