quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

CULPA

                                                                                Clauder Arcanjo

 

Capítulo III

 

O vento na mata e o cheiro de café coado me despertaram. Corri os olhos e, de início, me assustei. “Onde estou?… Não será risco… ficar aqui?…”

Nesse instante um jovem entrou naquela espécie de dormitório e me saudou:

— Como está, seu Batista?

Quis me levantar, mas ele me passou uma caneca, dizendo-me:

— Café. Continue descansando, é preciso. Vou sair para capinar o meu roçado, é logo aqui perto. Voltarei antes do meio-dia para almoçarmos. Já deixei tudo pronto nas panelas de barro sobre o fogão a lenha. Se sentir fome, pode se servir, não precisa me esperar.

Pôs-me aquele olhar de bondade. Sentei-me e engoli o café com sofreguidão, apesar de quente.

— Aceita um pedaço de cuscuz?

Sem esperar por minha resposta, saiu e retornou com um prato de ágata contendo um pedaço da iguaria de milho.

Deixou o prato ao meu lado, no chão junto à esteira em que eu dormira. Dando-me as costas, foi em direção ao canto do aposento de taipa, pegou o bisaco, a enxada, o chapéu de palha e ganhou a mata.

 

& & &

 

Fiquei sozinho. Os pensamentos em revoada, numa mistura de lembrança do vivido e de fantasmas em alvoroço dentro da minha cabeça, ainda zonza com o que me acontecera.

Depois de devorar o cuscuz com o café preto, levantei-me e andei por dentro do casebre. Simples, porém com tudo no seu lugar; via-se que o morador — lembrei-me do nome dele: Lourenço de Maria — era zeloso com suas coisas: o pote com um pano a envolver a rodilha, as panelas de ágata areadas, o fogão organizado com a boia já pronta em duas panelas de barro, o chão de terra varrido, as telhas vãs bem alinhadas… E uma rede enrolada, dependurada numa corda, e esta presa a um caibro mais grosso no fundo do recinto.

“Eu não presto. Não sirvo mais para nada, sou um condenado…”

Minha mente num rodopio só, a cabeça toldada pela lembrança da fuga, o desespero dentro de mim, cobrando-me pelas faltas, pelos meus crimes.

— Deus, me leve logo! — gritei.

 

& & &

 

Caí num choro convulso e, de repente, ajoelhado no chão, observei a corda que segurava a rede daquele bom moço.

“Que o meu corpo sirva de festa para os urubus… Eu… um desgraçado. Não presto…”

Desarmei a rede, retirei a corda e saí para o alpendre. Logo à frente, uma oiticica frondosa. Amarrei a corda num galho, testei meu nó de forca e cuidei de buscar um tamborete.

Quando coloquei a laçada no pescoço, ajustando-a bem, subi no tamborete e…

“Pai e filho, meu Deus!”

No momento as minhas oiças viram-se invadidas por um padre-nosso desengonçado — nunca fora homem de reza —, decidi empurrar o tamborete com os pés. O laço apertou forte a minha garganta. “Não, não! Não tive culpa. Não tive…”

O bulício do passaredo invadiu os ares; e eu, a estrebuchar pendurado na oiticica, encomendei a minha alma ao Diabo.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Culpa

CULPA

CULPA

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes