quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Credo

Clauder Arcanjo*

(“A Justiça”, de Giorgio Vasari)

E crê no bem! inda que, um dia,

No desespero e na agonia,

Mais desgraçado que ninguém,

Te vejas pobre e injuriado,

De toda a gente desprezado,

Perdoa o mal! E crê no Bem!

(Poema “O Credo”, de Olavo Bilac.)

 

Não sei de onde vim. Aqui estou, e o instante me basta. Há nos meus olhos apenas a poeira da estrada. Na mente, lisa como um lago, nenhum resquício do passado.

O que houve? Apesar da incerteza, não me inquieto. Sereno, sento-me à beira da estrada e, de quando em vez, os transeuntes me saúdam ao cruzarem comigo em passos rápidos. Aonde irão? Ou estão voltando?

Percebo que a mente vazia se enche de indagações. Como se não conseguisse permanecer oca; como se atraísse coisas que antes não me pertenciam. Ou apenas estavam silenciosas dentro de mim?

Não busco as respostas. Fecho os olhos e tento vagar no silêncio do momento. No entanto, de tempo em tempo, escuto um piar estranho numa copa de árvore próxima.

— O que será?

Subo na árvore e, dentro de um ninho que julgo abandonado, um filhote bate as asas, piando ansioso.

— Calma, rapazinho!

Ao tentar passar a mão sobre a cabeça do passarinho, ele se rebela com a minha proximidade, bicando-me com o máximo de suas forças.

— Ai, ai!

Aquela dor me traz uma revolta com ímpetos de fúria. Enrolo a minha direita em um pequeno trapo que sempre trago no bolso e tento removê-lo do ninho.

Nesse exato instante as garras de uma mãe-passarinha me atingem na altura da nuca. Solto o filhote e me volto para me defender. Sem tréguas, a ave me ataca seguidas vezes. Protejo os olhos com as mãos e, ao tentar descer, perco o equilíbrio e… caio.

— Ai, ai!…

Um garoto que a tudo observara se aproxima de mim e dispara:

— Você não tem vergonha, meu senhor?! Querer roubar o filho de uma mãe!

— Mas, eu só…

Fui lento na resposta. Pouco depois outros meninos juntaram-se ao protesto. De início, com palavras. Em seguida, com ataques físicos. Entre pedradas e palavrões, ganhei a mata fechada.

Meia légua depois, recobrei toda a memória. Tudo retornava à minha consciência:

— Credo!

E, deveras envergonhado, resolvi voltar para o lugar de onde vim.

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

 

 

 

 

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