sábado, 31 de janeiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoCLAUDER ARCANJO - Viver ou não viver, essa não é a questão!

CLAUDER ARCANJO – Viver ou não viver, essa não é a questão!

Após a cura do Companheiro Acácio, o mundo mudou para mim. Uma melancolia estranha invadiu o meu riso. A possibilidade de perder o meu amigo dileto mexeu com minhas certezas, arranhou a pele das minhas ilusões, baratinou os projetos que eu acalentava para o futuro, visto anteriormente como promissor, alvissareiro.

Os mais próximos perceberam a mudança no meu humor. Nabuco lambia-me os pés, a tentar remover-me daquele pântano de tristeza. Macambúzio, eu coçava-lhe a cabeça, porém logo voltava para dentro de mim mesmo, a conversar com meu mar de dúvidas.

“Viver ou não viver, eis a questão”, pensei certa tarde.

— Deixe de frescura, seu Clauder Arcanjo! Agradeça o dom da vida. Eu, que vi os olhos escuros da morte de perto, não estou assim, amigo! Reaja! Licânia precisa de nós — convocou-me Acácio.

— A vida vale a pena? — indaguei-o.

Notei que ele ficou rubro, e quando Acácio fica com a tez sanguínea, caro leitor, o melhor é sair de perto.

— Estamos conversando, não se afobe! — tentei serená-lo.

— Você fica metido com leituras que lhe dão as razões dos livros, amigo, e olhe ao que isso leva! Em muitos casos, sua filosofia celulótica mais atrapalha do que ajuda. Ontem, tarde da noite, vi-o sobraçado com o tomo do perturbado do Hamlet. Aquele sujeitinho de Elsinore, amigo, príncipe de araque, é mais doido do que o maior louco de nossas bandas! — disparou.

— Respeite o Bardo! — intrometeu-se Carlos Meireles, que acompanhava o nosso diálogo à distância.

— Olhe aí outro discípulo da teoria de que se deve ver o mundo pelas lentes borradas dos escritores. Não sabe descascar uma laranja, mas vai ao ápice do prazer lendo um mestre a descrever um suco de laranja num café da manhã romântico. Estarei errado, senhor Carlos Meireles? E outra coisa, a conversa não chegou à cozinha dos bibliófilos. Vá lá para a sua releitura de Memórias do subsolo, e me deixe aqui com este deprimido de uma figa! — cuidou o Companheiro de expulsar o Carlos Meireles, enquanto se dirigia a mim com o dedo maior de todos da mão direita em riste.

— Sabe que me veio uma ideia, seu Arcanjo: vou curar essa sua depressão com aquela mesma terapia com que você expulsou a minha Covid. Ou seja, vou enfiar este dedão no seu fiofó. Num instante você vai se concentrar nos assuntos que realmente importam! Estarei errado? — vaticinou Acácio, cercando-me pelas costas.

— Há mais coisas entre o céu e o mar do que desconfia a nossa vã filosofia, Companheiro Acácio. No entanto, fique logo sabendo, o primado de um traseiro incólume é ponto de honra para mim. Questão dogmática! — devolvi, encostando a retaguarda na parede da sala.

Nabuco, até então calado e recolhido, intrometeu-se:

— Mi, mi, mi… Mi… miauuuu… miauuuu…

Pus os olhos em Acácio, interrogando-o:

— Nabuco está rindo de nós?

— De nós, não. Ele está rindo de você. Numa tradução livre e anal, algo como: “Quem tem cu tem medo!”

Carlos Meireles, Uélsson, João Américo e Lourenço caíram numa risadaria frouxa. Eles nos aguardavam na calçada da pensão do Raul, a ouvirem toda a nossa dialética anti-covidiana.

Fechei os meus livros, guardei-os no fundo da minha mala. Com pouco, depois de respirar filosoficamente fundo, anunciei:

— To live or not to live, that’s not the question! Viver ou não viver, concordo, essa não é a questão. Vamos, Licânia nos espera. Chega de vítimas, temos que curar nossa gente; é esta a nossa sagrada, e indelegável, missão.

Ganhei o mundo, sendo seguido pelos meus amigos.

Ruas desertas, becos vazios. Em nós, apenas a certeza de que a cura daquela maldita pandemia não se encontrava na literatura. Conosco, três valorosos aliados: a esperança, a criatividade e a obstinação.

— Covid, aqui vamos nós!

Tal brado ecoou retumbante pelos céus silentes da província ferida, e muito querida.

 

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

Mais do autor

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes