sábado, 31 de janeiro de 2026
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Clauder Arcanjo: PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CLXXIV)

 

 

 

 

 

 

 

 

(A leiteira, de Vermeer)

Não gosto de provocar os meus instintos animais. Prefiro me ver treinado para os embates da elegância e da inteligência humanas.

Dize-me com quem te espetas que eu te direi que raça de cão tu és.

 

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Nuvens traiçoeiras cumulavam o olhar daquele forasteiro.

As mulheres da província apenas reparavam nos seus olhinhos azuis, enquanto eu desconfiava de suas passadas medidas e de seu discurso enviesado, cheio de salamaleques, mas falso como quê.

Quando desapareceu da cidade, ele deixou a Matilde em estado interessante, e o velho Messias a coçar as mãos, na dúvida se despacharia ou não aquele maldito para a Cidade dos Pés Juntos.

— Será o pai do seu neto, homem de Deus! — tentava dissuadi-lo Dona Lourdes, a amassar com os dedos trêmulos a barra da saia.

— Condenado!

 

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Novo nas letras, Júnior adorava ouvir o recital de vaidade dos useiros e vezeiros dos cadernos literários.

Alguns, amigos de Proust; outros, discípulos de Goethe; raros, seguidores da boa e enxuta prosa do Velho Graça.

— Quem poderia escrever uma carta para mim? Coisa digna de conquistar o coração de Guilhermina — inquiriu o jovem discípulo aos vetustos escribas.

Fizeram-se de ouvidos moucos, e vazaram todos no rumo de casa.

— Rapazinho inoportuno! — reclamou um deles, dos que se apresentavam mais próximos a Vieira.

 

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Alguns jornais crucificam os maus, outros tabloides desconfiam dos bons, e as edições especiais adoram macular os novos talentos.

Inquiridos quanto à razão que os movia em tamanho descaminho, respondiam, de pronto, que os homens corretos, com suas vidas certinhas e desenxabidas, não mereciam sequer uma manchete de canto de capa, tampouco os fazem vender jornais.

 

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Leu o Antigo Testamento com a sofreguidão de um condenado. Passou pelo Novo Testamento com o coração aflito.

Mas quando se defrontou com as páginas do Apocalipse, ele gritou pelo nome de Jó. Dizem que, naquela noite silenciosa, os céus choveram-lhe lágrimas de remissão.

 

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Se estava feliz, ele bebia para comemorar. Se tristonho, amansava a garrafa para se alegrar. Caso fizesse frio, a pinga seu aquecedor; caso o calor imperasse, a maldita o refrescaria.

— O que a cachaça representa para o senhor? — indagou-lhe o médico de plantão, diante daquele corpo magro e trêmulo.

— Doutor, é um caso de amor daqueles típicos de Nelson Rodrigues. Perdoa-me por te trair!

O médico, cansado com as suas seguidas recaídas, prescreveu-lhe uma nova terapia:

— Na primeira semana, Boca de ouro. Na seguinte, Toda nudez será castigada. Nas subsequentes, vá sorvendo, página a página: Anjo negro, Vestido de noiva, A cabra vadia, Os sete gatinhos, Asfalto selvagem. E, no fim do tratamento, como terapia de choque: A vida como ela é.

Ele deixou escapar um leve suspiro, a indagar ao doutor:

— E como tira-gosto, posso servir-me d’O Anticristo, de Nietzsche?

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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