quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
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Autopromoção com dinheiro público: a lei é clara, mas os políticos apostam na impunidade

A cassação do prefeito que gastou R$ 2,1 milhões em uma festa e ainda subiu ao palco para dançar com Wesley Safadão é mais do que um escândalo local. É um retrato de como parte da classe política insiste em agir como se as regras não existissem, apostando que, no fim, “não vai dar em nada”. Essa percepção se reforça diante de dezenas de situações semelhantes, em que prefeitos, governadores e parlamentares escapam, e a conta sobra para o contribuinte.

 

A Lei de Improbidade Administrativa, em vigor há mais de três décadas, é clara: quem usa dinheiro público para benefício próprio ou causa prejuízo ao erário pode ser punido com perda do cargo, suspensão de direitos políticos e obrigação de ressarcir os cofres públicos. A Constituição também não deixa dúvidas. O artigo 37, parágrafo 1º, veda a promoção pessoal em atos oficiais.

 

Ainda assim, a prática persiste. Processos se arrastam, estimulando a repetição de abusos desse tipo. Mais do que esperar a Justiça agir depois que o estrago já está feito, é preciso mudar a lógica. Não é aceitável que prefeitos gastem milhões com a contratação de artistas famosos enquanto faltam médicos nos postos de saúde e professores nas escolas.

 

Cada real gasto em palco, luz e fogos é um real a menos para quem depende da rede pública para sobreviver. Não se discute a importância da promoção de eventos culturais, mas a questão está no preço pago e na forma como são realizados. Muitas vezes, eles se transformam em instrumentos da velha lógica do pão e circo, servindo apenas para alimentar a autopromoção de políticos.

 

Se a sociedade não reagir, se a imprensa não expuser e se o eleitor não cobrar, a festa com dinheiro público seguirá sendo tratada como normalidade. O caso Safadão precisa ser um divisor de águas: não se trata apenas de improbidade, mas de uma escolha política que transforma o abuso em espetáculo. A lei é clara. O que falta é o país decidir se continuará aceitando esse espetáculo pago com dinheiro público ou se, finalmente, exigirá que ela seja aplicada com rigor e de forma rápida.

 

Vanessa Marques – jornalista

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