Marcio Damasceno, correspondente da RFI em Berlim
A principal festa do Dia da Unidade Alemã está sendo realizada neste ano em Saarbrücken, capital do estado do Sarre, no sudoeste da Alemanha, com a presença do chanceler alemão, Friedrich Merz. O presidente francês, Emmanuel Macron, é o convidado de honra da festa. A participação do chefe de Estado francês visa ressaltar a importância da amizade franco-alemã.
Mas nem todo mundo ficou contente com o convite ao Macron. Em uma entrevista na véspera, a ex-chanceler Angela Merkel disse que tem muita consideração por Macron, mas que talvez fosse melhor convidar alguém da antiga Alemanha Oriental ou da Europa Oriental para a festa dos 35 anos da reunificação.
Merkel é uma alemã oriental, o atual chanceler, Friedrich Merz, é alemão ocidental. Essa discordância serve um pouco como ilustração de como as duas Alemanhas continuam pensando de forma diferente.
Insatisfação persistente
A sondagem, feita com 1.300 pessoas pelo instituto Infratest Dimap por encomenda da rede de televisão pública alemã ARD, constatou que 61% dos alemães se dizem “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com a situação da reunificação, enquanto 34% estão “pouco satisfeitos” ou “nada satisfeitos”.
Mas quando as duas metades do país são observadas separadamente, é possível ver uma discrepância entre os dois lados. Enquanto no oeste quase dois terços estão satisfeitos, no leste, somente a metade dos cidadãos está satisfeita.
O aspecto mais criticado na região da antiga Alemanha Oriental é a distribuição desigual de riqueza. A liberdade política e a liberdade para viajar, o que não havia 35 anos atrás, são vistas de forma particularmente positiva.
No entanto, dois terços dos entrevistados no leste do país acreditam que a democracia não está funcionando bem atualmente. No oeste alemão, esse número é de apenas 50%.
Essa diferença de mentalidade que ainda existe nos dois lados se reflete também na hora de votar. A “fronteira fantasma” entre os dois lados ficou bem evidente nas eleições legislativas de fevereiro passado, nas quais o partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) saiu vencedor em todos os estados do leste alemão – com exceção de Berlim, cidade-estado que ficava na Alemanha Oriental e cuja parte oriental pertencia àquele país. Nas eleições para o Parlamento Europeu, realizadas em junho de 2024, a AfD já tinha saído vencedora nos estados do leste.
Reduto de extremistas
Desde a reunificação em 1990, a antiga Alemanha Oriental tem sido um reduto de ultranacionalistas, incluindo neonazistas.
Mas, além dessa desigualdade na mentalidade e na preferência política, a divisão ainda se reflete nos números da economia mais de três décadas após a reunificação.
A disparidade entre os dois lados ainda persiste, embora indicadores como desemprego e poder de compra tenham melhorado progressivamente nas últimas décadas. A diferença nos níveis de renda é de 15,9%, em comparação com 26% em 1990, de acordo com um estudo da Fundação Bertelsmann.
A riqueza é o aspecto em que as maiores diferenças persistem, já que o patrimônio dos residentes da Alemanha Oriental equivale a 44% do dos alemães ocidentais. Isso significa que, enquanto cada alemão ocidental possui, em média, um patrimônio de € 153 mil, os alemães orientais têm uma média de € 67,4 mil por cidadão. E isso apesar de a riqueza dos alemães orientais ter crescido 75% desde a reunificação.
Em relação ao desemprego, também houve um processo de convergência. Em 1991, o desemprego no leste era de 10,2%, em comparação com 6,2% no oeste. Em 2005, o desemprego no leste havia disparado para 20,6%, enquanto no oeste o número era de 11%. A diferença então começou a diminuir. Atualmente, a taxa de desemprego no oeste é de 5,3%, em comparação com 7,2% no leste, de acordo com dados do governo alemão.




