sábado, 31 de janeiro de 2026
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PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CCXXXI) – Clauder Arcanjo

Foto: Mirante, Marcelo Visentin.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um instante de vigília na pausa da tarde

 

O mundo e suas canções

de timbre mais comovido

estão calados, e a fala

que de uma para outra sala

ouvimos em certo instante

é silêncio que faz eco

e que volta a ser silêncio

no negrume circundante.

(Carlos Drummond de Andrade, em “Cantiga de enganar”)

 

Satírio esperou a tarde chegar para dar início à sua vigília.

Duas da tarde, Licânia regalava-se com a modorra dos seus habitantes e suspirava como se também entregue à sesta.

Três da tarde, as ruas espreguiçaram-se, e um ou outro cidadão espiava o mormaço das calçadas.

Quatro da tarde, Satírio quis desistir da vigília. Será que tudo lhe seria em vão?, inquietou-se.

Quando viu que Crisálida saía para a igreja, o relógio da Matriz se preparou para o badalar das cinco. E Satírio rogou aos céus pelo pecado das seis.

 

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Goliardo da Silva voltou à terra natal após anos no seminário. Alguns falam que retornou porque terminara os estudos e se revelara um homem sábio. Outros, porque não conseguira conter os arroubos da libido, fora expulso e tornara-se um cínico itinerante. “Os freios da carne são necessários para o exercício da sapiência”, satirizou o agnóstico João Américo, ao saber do seu retorno a Licânia.

Passada uma década, Goliardo revelou-se um empresário de sucesso. Dos parcos conhecimentos religiosos, fundou uma nova e rica igreja, casa aberta a todos os pecadores. Da “decantada sapiência”, fez-se conselheiro dos poderosos, a troco de régias participações nos negócios públicos. E, com os valores dos cínicos e pervertidos, abrira uma casa para consolo e exaltação dos instintos do corpo.

 

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Nenhuma canção lhe trará o ritmo de outrora, caso você tenha quebrado de vez a partitura dos dias.

 

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Quando quis acelerar, o mundo lhe pedira paciência. No instante em que se revelara manso, os vizinhos lhe exigiram ferocidade. Hoje, caduco e desdentado, mas unindo os atributos do paciente feroz, a cuidadora do asilo põe-lhe em prática a terapia da vassoura zen-budista.

—  … vai tomar banho ou quer mais umas vassouradas para relaxar?

 

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De tanto navegar no remanso, Donato Carnaúba desaprendeu a remar em águas plácidas.

De tanto ouvir abusos da companheira, Donato desaprendeu a colher as carícias do amor.

De tanto gastar o salário antes do fim do mês, Donato Carnaúba perdeu a fé na existência da poupança.

Quando Donato compareceu ao psiquiatra, este vaticinou:

— Humm… O hábito fez de você um caso perdido.

 

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Toda manhã, logo cedo, Palmácio das Neves abria o dicionário em busca de um novo vocábulo.

— Bom dia, meu dileto vizinho energúmeno. Que a manhã lhe seja dantesca!

No outro dia, antes de cruzar a rua:

— Bons fluidos, cara vizinha fornicadora. Cuidado com o excesso de sol e de falo!

Certa tarde, ao retornar do trabalho, a vizinhança esperava-o à porta de casa:

— Boa tarde, infausto e inominável vizinho. Prepara o teu lombo para uma inopinada e homérica sova.

O vizinho recém-chegado trouxera na bagagem um dicionário.

 

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Mantenha a calma na pressa da lida; caso não, você tombará quando for subir no cavalo selado que se lhe apresente um dia.

 

As tiranias criam servidão até no gosto.

(Edmond et Jules de Goncourt, em Diário: memórias da vida literária)

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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