quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
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SOBRE ENCANTOS E CANÇÕES

Retido em casa por força do tal distanciamento necessário no enfrentamento ao Covid-19, aproveito para por em dia leituras adiadas, recuperar velhos escritos e ouvir música, usando essa mina inesgotável chamada spotify. Isso clicou algum arquivo na pasta das emoções e antigos registros vieram à tona.

Minha formação musical deu-se através do meu pai e da velha radiola, um móvel enorme, com duas portas e o conjunto de rádio e vitrola. Meu pai tinha um grande número de discos de 78 rotações, bolachões pesados, com uma música em cada lado. A etiqueta, além do cantor e autores, trazia também a informação sobre o estilo: foxtrote, samba-canção, tango. A vitrola tinha um dispositivo que permitia que se empilhassem os discos e assim eles iam caindo em sequência. Então, um a um, desfilavam Carlos Galhardo, Francisco Alves, Vicente Celestino, Orlando Silva, Trio Irakitan. Nelson Eddy e Jeanette Macdonald faziam um dueto fantástico, cantando Ah! Sweet Mistery of Life. (O Cinema Rex em uma ocasião exibiu um festival de musicais da dupla e eu, garoto, tive a chance de vê-los em ação em filmes tão belos quanto melosos.) Uma ocasião meu pai comprou um compacto em que Nelson Gonçalves cantava a dor-de-cotovelo Revolta (Hoje tão longe dos teus lábios sedutores/Sem o carinho dos teus beijos, meu amor/Não tenho horas de sossego em minha vida/Sou mais um barco que não tem navegador) e no lado B um garoto espanhol cantava com voz aguda uma canção chamada Saeta, o Canto do rouxinol. Era Joselito, que lotava as sessões de domingo do Cine Poti. Quem também lotava as sessões de cinema e provocava o suspiro das meninas e a inveja da garotada era Elvis Presley. Por conta dessa inveja passei horas em frente ao espelho tentando, em vão, domar meu cabelo rebelde e fixar um topete à base da brilhantina Glostora.

 

 

Eram tempos das grandes orquestras e cantores de voz poderosa. Meu tio era artista contratado da TV Rádio Clube de Pernambuco e comandava um programa chamado Encontro com Ernane Dantas, onde ele cantava acompanhado do piano do maestro Nelson Ferreira. Além de cantar ele contava a história das músicas além de relatar casos engraçados. Em casa a família tentava acompanhar em frente à imagem precária da TV em preto e branco. O Bombril era um auxílio luxuoso.

Um parêntese necessário: na casa vizinha à nossa, nos fundos, funcionava a oficina das antigas radiolas de ficha que animavam a noite nas pensões e cabarés da Ribeira. Então, meio que obrigado, eu passava as tardes a ouvir tangos, boleros e bregas de toda ordem: Silvinho, Orlando Silva, Lindomar Castilho, Anísio Silva, Roberto Muller, Waldick Soriano. E de tanto ouvir a gente passa a gostar.

De repente surgiu uma nova geração, uma nova forma de cantar e de fazer arranjos. A voz afinada e um violão, além de letras refinadas, tomaram lugar dos vozeirões de artistas tipo Agnaldo Rayol, Francisco Petrônio e Moacyr Franco. Ao invés de cabarés e traições falava-se agora em barquinhos e garotas na calçada da praia. E a garotada toda queria aprender a tocar violão.

Quando achávamos que já sabíamos o caminho uma menina feiosa de cabelos encaracolados e uma afinação absurda lançou um disco com arranjos do maestro Rogério Duprat e músicas de Caetano Veloso e Jorge Ben. Gal Costa passou a ser, por muito tempo, a minha musa absoluta. Só quem ouviu os Mutantes pode avaliar a riqueza dessa revolução musical. E Tom Zé. E Gil. E Elis Regina. E outros. E tantos.

Aí, por conta da ditadura instalada em 1964 surge uma novidade e uma variante: a música de protesto e os festivais (não necessariamente nessa ordem). Com algumas exceções as letras todas passavam uma mensagem contestatória ou de resistência aliadas a uma alta riqueza melódica. Edu Lobo, Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Tom Jobim, Johnny Alf.

Alguns artistas foram presos ou tiveram que deixar o país. Carreiras foram destruídas. Wilson Simonal, Taiguara, Geraldo Vandré. Elis Regina foi “enterrada” por Henfil por haver cantado o Hino Nacional nas Olimpíadas do Exército. Fizeram as pazes quando a baixinha furacão gravou O Bêbado e o Equilibrista que pedia a “volta do irmão do Henfil”- Betinho – que estava exilado no Canadá.

Muitos anos passaram desde a radiola de meu pai. Tantas histórias, tantos dramas em meio a tantas belas canções. Tanto talento e tantas vítimas envoltas em meio ao tsunami social-político daqueles anos. Que não se repita. Que não seja, nunca mais, necessário. Mas se preciso é bom lembrar que “todo artista tem de ir aonde o homem está”. Resta saber para onde nós todos estamos indo ou estão nos levando.

NATAL/RN

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