sábado, 31 de janeiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoPílulas para o Silêncio (Parte CLXXXVII)

Pílulas para o Silêncio (Parte CLXXXVII)

Clauder Arcanjo*

 

 

(Pintura “Família enferma” (1920), de Lasar Segall)

 

Diário da Quarentena IV

 

Desceu do cavalo e observou o rastro da rês junto ao bebedouro. 

— Parece que está mais magra! 

Montou e continuou sertão adentro. Ao se aproximar de uma capoeira grande, apurou os ouvidos. 

— É o chocalho dela — concluiu. 

Quando escolheu uma sombra, a fim de amarrar o cavalo cansado, a novilha se aproximou; descarnada porém altiva. Ao seu lado, um bezerro novo, cria de um touro desconhecido. 

Ele aboiou baixinho, como a se apresentar para a alimária fujona. 

Ela lambeu a cria, sacolejou a cabeçorra, e fez com os cascos modos de repulsa. 

— Fique em paz. Se quiser voltar, a terra é sua! 

Montou no cavalo, ajustou o chapéu de couro e aboiou um lamento. Tão dorido, que toda a capoeira silenciou. 

 

&&&

 

Sobre a escrivaninha, os rascunhos da noite. Quis salvar os cacos da produção última; mas, quanto mais relia, mais concluía que a noite não lhe fora companheira. 

Revoltado, levou os papéis para junto do fogão a lenha, destinando-os ao fogo. 

Ficou sentado, calado acompanhando o crepitar das chamas. Sobre a trempe, o bule de café. “Água fervida com o calor dos meus miolos!”, pensou. 

Serviu-se do moca na caneca de ágata. Depois de seguidos goles, a mente mergulhou num mundo de… 

Correu para a escrivaninha e varou a manhã, rabiscando, a tecer histórias novas. 

O fogo às vezes incendeia a inspiração. 

 

&&&

 

Nunca gostou de visitar hospícios. Gostava de ficar longe dos seus semelhantes. 

 

&&&

 

No dia em que decidiu ser romântico, assumiu a forma mais bisonha e melosa. 

A risada da sua pretendente, simbolicamente, empurrou-o, de mala e cuia, para os braços dos mal resolvidos. 

— De agora em diante, serei um filiado do clube dos solteirões! — esbravejou. 

Ao se encontrar com a bela Ritinha na esquina seguinte, rasgou o ainda não assinado cartão de filiação. 

 

&&&

 

— Preciso de novos ares — anunciou, antes de sair de casa. 

Migrou para a cidade grande. Lá, estudou, labutou e fez renda. 

Anos depois chamou a família e comunicou-lhes: 

— Preciso dos ares da minha província! 

E, sem dizer mais nada, depressa para ela retornou. 

 

&&&

 

“Quanto mais gordo o defunto, mais sofrida a cova” — confabulavam, entre si, os ajudantes do coveiro, mal anunciaram a morte do poderoso homem da província. 

 

&&&

 

Tudo lhe ocorrera tão depressa que se esquecera de viver a vida. 

Quando o médico orientou-a, após ouvir o seu debulhar de lamentos: 

;;

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Culpa

CULPA

CULPA

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes