terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
InícioColunasClauder ArcanjoA Virgulina – CLAUDER ARCANJO

A Virgulina – CLAUDER ARCANJO

Mais de um mês se passou, e nenhuma notícia do tratamento no Eldorado. A cidade, ansiosa e tomada pelo embalo do fuxico, anda por demais inquieta.

Na Pedra do Mercado, muitos alegam que a viagem de Licânia para a Fazenda Eldorado nem sequer se deu.

— O jipe do Lourenço não levaria essa gente toda, pessoal! — esbravejava um fuxiqueiro incrédulo, revisionista de plantão.

Nisso o Gordinho do Eurico rebateu, ofegante, com sua gagueira singular:

— E… e… você é um abes…tado! O jipão do Lourenço é… co-como co-coração de mãe, seu bes-bestão!

Com pouco, uma comissão, encabeçada pelo Raimundo Sacristão, foi designada para se dirigir ao Eldorado, e colher, para os pios paroquianos licanienses, notícias da eficácia (ou não) do tratamento com a canaquina.

Dona Maria Djanira, ao saber da comitiva, ofereceu os préstimos da rural do seu esposo. E a Virgulina, conhecedora dos caminhos que sempre levam ao Eldorado, foi eleita para conduzir o grupo de incrédulos (e curiosos) ao local do tratamento licaniense contra a praga do coronavírus.

Não posso aqui, caro leitor, relatar como se deu toda a viagem da Virgulina. A distância era de légua e meia, coisa que levava não mais do que quarenta minutos, que fique bem claro. O problema foi a ofensa, logo na saída, do “bendito” sacristão. Este, mal se achegou da rural, agrediu-a:

— Que carro velho da bexiga! E, além de tudo, batizado com o nome do maior facínora do sertão. Com a minha santidade, julgo que não deveríamos seguir nesta… Virgulina!

Foi o suficiente, bem mais do que o bastante.

Como não conseguiriam outro transporte, o jeito foi se aboletarem na Virgulina e seguirem caminho. Marquinhos, fiel motorista e exímio condutor, percebeu algo de errado no ronco, e no tranco, da “lampiônica” máquina.

Na primeira curva, a Virgulina deu uma guinada e uma brecada bruscas. Com isso o Raimundo Sacristão, sentado — imperial e sem cinto — no banco da frente, largou as fuças no painel da fubica.

Sem dar bolas para os urros de dor do secretário do padre, a Virgulina desembestou encapetada. Quando sobre a parede do açude do Zé Euclides, guinou para bem próximo da cerca, ameaçando o suicídio veicular, jogando-se de água adentro.

Nisto Marquinhos resolveu invocar todos os santos, bem como apelar para o bom coração, digo bom carburador da velha companheira:

— Calma, Virgulina! Ao longo desta nossa caminhada, superamos e perdoamos muitas faltas. Lembre-se da máxima do nosso patrão, como sempre professa Seu Zequinha Arcanjo: “Só há um sentimento maior do que o amor: o perdão!”.

Virgulina roncou uns desaforos fumacentos, enfiou as rodas no barro seco, fez pirraça com elas, jogando poeira na estrada… No entanto mantinha-se irredutível.

De repente, Marquinhos pede que o sacristão, causador da zanga de Virgulina, descesse e se ajoelhasse perante a ofendida:

— Como bem me ensinou Seu Zequinha: “Quem se ajoelha se agiganta!” Vá, filho de Deus, peça perdão à bichinha. Salve-nos deste mortal aperreio.

O assistente paroquial desceu com as calças completamente mijadas (segundo comentários ladinos, só não estava cagado porque não havia merda pronta). Trêmulo, Raimundo Sacristão se ajoelhou diante da encolerizada máquina, a rogar-lhe:

— Fubiquinha, fubiquinha. Virgulina tão amada por Seu Zequinha, não repareis nas minhas palavras, mas na fé que move o nosso caminho…

Virgulina achou aquele discurso muito empolado, assim como tomado de empréstimo. Melhor, julgou-o falso como uma tábua de fojo para pegar preá, e roncou furiosa:

— Vrum… vrum… vrummmm…

Jogando areia e poeira nos olhos do sacristão, a brava Virgulina deixava-lhe claro o descontentamento.

Nisso o restante dos passageiros a protestar:

— Ajoelha e pede logo perdão, filho de uma égua!

Neste exato momento, um relâmpago cruzou os céus de Licânia, e um trovão se seguiu, como se a rasgar a linha do horizonte.

— Valha-nos, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Valha-nos, Senhora Sant’Anna! — gritavam todos.

A Virgulina, agnóstica de combustão, mantinha-se impávida. Aproximou-se ainda mais do precipício, prestes a levá-los para os fundos do Inferno. No caso, o fundo das águas.

De imediato deu-se um milagre: Raimundo Sacristão beijou o para-choque da rebelde, acariciou os seus faróis, elogiou-lhe o potente motor, e lhe pediu, ajoelhado, perdão pela sua falta:

— Não nos deixe morrer, Dona Virgulina! Tenho quatro filhos legítimos para criar… — E, num tom mais baixo: — Sem contar a meia dúzia de ilegítimos espalhados por este sertão de meu Deus.

Virgulina deu uma ré e, antes de tomar o rumo do Eldorado, imprensou, contra a cerca de arame farpado, a bunda grande do sacristão.

Marquinhos recobrou o comando da direção da Virgulina, mas não conseguiu freá-la. Pôs a cara para fora e orientou ao Raimundo Sacristão que voltasse a pé para Licânia.

Eles seguiriam em frente. Virgulina era por demais sentida e temperamental. Seu perdão precisava de rogos e de muito, mas muito tempo.

O resto da odisseia correu sem maiores infortúnios. Virgulina, justiça lhe seja feita, tornou o caminho sedoso, pois sabia onde os buracos habitavam naquela quase meia légua que ainda restava.

Ao se aproximarem da Fazenda Eldorado, o céu já se tingia de sangue, e a rádio anunciava a Hora do Ângelus.

Marquinhos se benzeu; e a Virgulina buzinou, anunciando a sua chegada.

— Mi… miaiau… Oh, mimiau…

Sim, caro leitor, estamos diante de mais uma surpresa. O nosso bichano Nabuco, sem que ninguém percebesse, escondera-se na parte traseira de Virgulina, fazendo parte da citada comissão investigativa.

Mas… isso será assunto para um outro capítulo. Por hoje basta, descansemos.

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo

Clauder Arcanjo é escritor, membro da Academia de Letras do Brasil. Autor das obras Licânia, Novenário de espinhos, Uma garça no asfalto, Cambono, O Fantasma de Licânia, entre outras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

CULPA

Culpa

CULPA

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes