As redes sociais digitais passaram a ditar o ritmo e a direção da mobilização política. Os atores políticos da nova geração sabem que, para sustentar engajamento, é preciso produzir fatos fora das plataformas. O ambiente digital se alimenta do off-line e vice-versa. É nesse cruzamento entre rua e rede que eventos, gestos e performances públicas se transformam em matéria-prima para manter a militância mobilizada e o debate político ativo.
Por isso, a caminhada do deputado federal Nikolas Ferreira precisa ser analisada menos como um ato político tradicional e mais como uma estratégia de comunicação para aquecer a militância e reenquadrar os debates políticos nas redes sociais digitais e na mídia tradicional. É nesse terreno que a marcha entre Minas Gerais e Brasília de 240 km adquire sentido político.
Cada trecho da caminhada pela Liberdade foi convertido em imagem, cada imagem em engajamento, e cada pico de reação passou a orientar o ritmo da mobilização. Um único vídeo publicado durante o período ultrapassou 50 milhões de visualizações. Em meio à ampla repercussão, políticos, candidatos e influenciadores da direita conservadora, especialmente ligados ao bolsonarismo raiz, passaram a se associar ao ato, tanto no ambiente digital quanto nas ruas.
Nesse modelo, visibilidade não é consequência da ação política; é condição prévia. A rua deixa de operar como espaço deliberativo e passa a funcionar como insumo simbólico para circulação digital. O corpo em marcha, o desgaste físico e a narrativa de sacrifício cumprem uma função comunicacional clara: gerar identificação, reduzir complexidade e ativar respostas emocionais compatíveis com a lógica das plataformas. Inclusive, reforçando a narrativa de perseguição e sofrimento.
O efeito direto é o deslocamento do debate público. Questões institucionais complexas são reorganizadas em uma gramática moral simples, baseada em antagonismo e injustiça, mais eficiente para engajamento e compartilhamento. Não se trata apenas de uma estratégia previamente desenhada, mas de um processo adaptativo, calibrado continuamente a partir da reação do público e do desempenho algorítmico dos conteúdos.
Essa dinâmica dialoga com a leitura de Benjamin Moffitt sobre o populismo como estilo político performativo. Um estilo que privilegia a encenação constante da crise, a dramatização do conflito e a resposta em tempo real às emoções da audiência. A caminhada, nesse sentido, não comunica apenas uma posição política; ela performa uma identidade e consolida um enquadramento.
O ponto central, portanto, não é julgar a legitimidade do ato, mas compreender a lógica que o sustenta. Na política midiatizada, agendas, bandeiras e discursos passam a ser moldados pela economia da atenção. No fundo, a direita conservadora compreendeu que, nesse ambiente, a imagem organiza mais poder comunicacional do que qualquer conjunto de propostas.
Por Vanessa Marques- jornalista




