quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Culpa

Clauder Arcanjo

 

Capítulo II

 

“Não, não… não tive culpa. Não tive…”

— Calma, meu senhor. Tenha calma. Algum problema?

Despertei e, ao abrir os olhos, o corpo em febre, percebi a presença de um jovem junto a mim.

— Eu… não… — a voz me faltava, a cabeça a girar, sem forças.

— Você está ferido! — constatou.

— Sede. Estou com… sede. Água, por favor — pedi-lhe.

Ele, de pronto, me atendeu. Bebi a goles grandes na quartinha, engasgando-me.

— Devagar. Sem pressa, seu… Seu nome? — indagou-me.

Não emiti resposta, apenas diminuí a voracidade com que me dessedentava e observei a sua fisionomia. Quase da idade daquele que ficara morto na areia; motivo da minha fuga, do meu desespero.

— Eu me chamo Lourenço. Lourenço de Maria. Muito prazer — falou, a me demonstrar confiança.

Fechei os olhos, um zumbido na mente e um peso na consciência a me remeterem ao pesadelo do qual fugira. “Ninguém para levar esse condenado, tirá-lo daqui!”

— Senhor?

— Meu nome é Batista. Batista de Assunção.

— Prazer em conhecer, seu Batista — disse-me, apertando a minha mão direita, numa espécie de saudação costumeira.

Fiquei com a mão grossa presa entre os dedos finos daquele rapaz, tomado de surpresa com o seu ato, com a sua educação. Inventara aquele nome, confesso que mais preocupado em preservá-lo do meu drama, evitando ligá-lo de alguma maneira à minha tragédia. “Pai e filho, meu Deus!”

As vozes a me inquietarem, a remoerem a minha paciência — “Vá, deixe de coisa! Não quero briga!” —; a lembrança a espicaçar dentro dos meus miolos.

— Vamos para minha casa, senhor Batista. Moro aqui bem perto. Lá cuidarei desses ferimentos. É coisa superficial, mas não se deve deixar isso piorar. Prevenir é melhor do que remediar, sempre me ensinou meu saudoso avô — disse-me, tentando me levantar do chão em que me encontrava.

— Não. Não tive… culpa… Pai e filho… meu Deus!

Nada falou, apenas ofertou-me o ombro amigo e, com jeito, foi me conduzindo. Encontrávamo-nos à beira do rio; não sabia identificar o lugar exato, pois não me lembrava do quão distante chegara naquela carreira desabalada.

— Meu filho, eu não presto. Deixe-me aqui. Que Deus me leve logo, e meu corpo sirva de festa para os urubus… Eu… eu não presto.

— Calma, meu senhor. Não se deve pronunciar más palavras. Deus é grande, e maior ainda a Sua misericórdia — devolveu-me.

Sem me alimentar bem há dias, as pernas me faltavam. Quando atingimos o alto da ribanceira, divisei uma casinha de palha, tão parecida com a minha. Aquilo me encheu os olhos de lágrimas e…

— Estamos chegando, seu Batista. Um pouquinho mais. Força, força nas pernas! — estimulava-me.

Deitou-me numa manta sobre um trançado de palha, disposta no canto do casebre. Em seguida, cobriu-me com um lençol, a declarar-me:

— Fique aqui e descanse. Vou preparar um caldo de peixe para melhorar seu ânimo.

Lá fora, o passaredo a encher os ares com um trinado doce e festivo.

Quis me levantar, mas não pude. A cabeça zonza; fraco, entreguei-me e mergulhei num sono profundo. “Não tive… culpa, Lourenço… Pai e filho… meu Deus!”

 

[email protected]

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Culpa

CULPA

CULPA

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes