sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
InícioArtigosUma discussão incômoda

Uma discussão incômoda

Coluna Alex Medeiros

Por Tribuna do Norte

 

Em julho, setembro e novembro de 2022 eu publiquei aqui notas alertando sobre a erotização de menores entre 10 e 16 anos nas redes Instagram, Tik Tok e YouTube sem que nenhuma autoridade lançasse olhos naquilo. Mas estavam sempre alerta para patrulhar quem contrariava a pauta elegebesteira. Pouco depois, a assessoria do Tik Tok enviou um e-mail avisando que impôs um limite etário. A verdade é que as redes são extensão de uma cultura antiga.

O Brasil tem uma longa e contraditória relação com a infância. Ao mesmo tempo em que proclama proteger menores, convive com práticas culturais e midiáticas que, ao longo das décadas, expuseram crianças a conteúdos e situações que ultrapassam em muito o limite saudável da sua idade. Nos anos 1990 e início dos 2000, a televisão aberta foi o grande palco desse fenômeno.

Auditórios incentivaram meninas, muitas pré-adolescentes, a participarem de coreografias sensuais ao som de grupos como É o Tchan. Crianças vestindo trajes iguais das dançarinas brincavam de dançar a “Boquinha da Garrafa”.

A conotação sexual da dança era óbvia para qualquer adulto, mas estranhamente era tratada como diversão inocente para plateias e até por familiares. Mães empurravam as filhas ao palco, orgulhosas da desenvoltura.

A ficção também entrou na dança. Novelas e filmes exibiram menores em situações de romance e sensualidade e eram envolvidos em tramas amorosas com adultos, sem críticas sobre limites éticos e o impacto na audiência jovem.

Nas artes, episódios recentes reacenderam a polêmica. Uma exposição em Porto Alegre, em 2017, incluiu uma performance onde crianças tocavam um homem nu, coisa que organizadores disseram ser apenas arte contemporânea. O episódio provocou indignação e abriu uma guerra de narrativas: de um lado, a defesa da liberdade artística, capitaneada pela esquerda e pela imprensa progressista; de outro, o argumento moral da proteção integral das crianças.

O que tais momentos têm em comum é a banalização de condutas que, sob o discurso da inocência ou da expressão artística, acabam atravessando a fronteira entre a valorização cultural e a sexualização precoce dos menores.

A adultização não é só vestir crianças como adultos ou incentivá-las a repetir gestos e coreografias de conotação sexual; é também projetar nelas expectativas, comportamentos e emoções que pertencem ao universo adulto.

O debate é incômodo porque exige que a sociedade olhe para o próprio passado e reconheça que o que ontem foi tratado como normal hoje é entendido como nocivo. Mas a polêmica não pode ser tática político-partidária.

A adultização de menores é tão antiga (como lembrou Jânio Vidal aqui ontem) que já virou patrimônio cultural não declarado. É como se o Brasil afirmasse que criança não precisa viver a infância; basta ser miniatura do mundo adulto.

No fundo, o problema não é só moral, é estético. Começou nos anos 60 com as meninas vestindo suas bonecas, depois se vestiram de bonecas e adiante incorporaram mulheres reais, com direito aos cosméticos e à “moda fashion”.

O mercado chamou de charme, a televisão tratou como brincadeira, as artes classificaram de livre expressão, a justiça interpretou como ousadia inocente e a esquerda decretou como quebra de tabus. Freud diria que é outra coisa. E é na coisa que entra em cena a pedofilia, hoje um negócio e uma política.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes