quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O amor não acaba

 

 

Clauder Arcanjo*

(Escultura “O beijo”, de Auguste Rodin.)

Para a minha amada Biscuí

 

O amor, quando se revela, 

Não se sabe revelar. 

Sabe bem olhar p’ra ela, 

Mas não lhe sabe falar. 

(Fernando Pessoa)

 

O amor nos surgiu num olhar, e, até hoje, quando cruzo com os teus olhos negros, querida, pouco sei falar. A voz se rende, embargada. Só concluo que ele não se findará assim tão fácil, pois, tal madeira de lei, queima-me o peito, e a brasa que me surge mais se incandesce, energia inesgotável a nos abrasar. 

Amor assim não acaba numa segunda-feira. Destas nas quais os compromissos nos impõem o rito sumário da mesmice. Eis que basta um beijo teu marcar a minha face cinza, e o céu ganha contornos de arco-íris no meio da tarde, condenando a pálida rotina ao sepulcro mais profundo. 

O amor não acaba na geladeira vazia. A garrafa seca a nos espiar traz a troça para o meio da sala e, juntos, sorrimos abraçados. Em seguida, despimo-nos e resolvemos, tantas vezes, em banho demorado, matar a sede do afeto e dos corpos até então sedentos. 

O amor precisa de simples regar: um beijo com o visgo do sono no bom-dia, outro com cheiro de café na saída para a labuta, outro na entrada em casa sob o peso dos compromissos, e outro mais demorado no leito em que o silêncio do sono nos traduz o indecifrável, e quase sempre indizível. 

O amor, tu bem desconfias, resolveu montar praça nos nossos peitos, e eis que o meu fado coração dispara, mal tu me identificas em meio a qualquer multidão. Desconfio, Biscuí, que existe uma bússola na tua retina, pois me localizas tal qual um GPS. 

Nos primeiros dez anos, diziam-nos: “Isto é fogo de palha!”. A palha se transformou, ou os incrédulos não entendem nada de paixão, muito menos de amor eterno? O amor não acaba por cruel premonição. 

Depois de vinte anos, já com os nossos três filhos presentes, a semeadura tornou a nossa caminhada sobre seixos macios. Acompanhados de três rebentos, amores novos, o amor antigo reacendeu o brilho, e a festa ganhou ares de família enamorada. 

Nas bodas de prata, o sorriso nos olhos não se aquietou, parecíamos amantes em lua de mel. E, à noite, no fogo dos lençóis, ríamos do nosso apetite pelo prazer redivivo. 

Quase quarenta anos de matrimônio assim, e nada do amor acabar. Às vezes penso que a nossa paixão é mais antiga do que o próprio silêncio. E quem achar ruim que cuide da sua desvendar, mas procure-a nos locais em que o instante se ilumina. O meu amor eu encontrei em Santana do Acaraú, Licânia dos meus pais: era festa da nossa Padroeira, Sant’Ana, um dezoito de julho de 1982. Todos os dezoitos nos conquistam desde lá: a placa do carro, a mesa do restaurante, o número do quarto do hotel, a cadeira em uma aeronave, a chave de uma solução qualquer. E, na quietude de cada dezoito, em qualquer dos meses do ano, renovamos as nossas juras e te tiro para dançar. Hoje não preciso recorrer a nenhuma chave ou palavra: o amor não acaba, porém o verbo sim. 

Eu te amo, minha querida Biscuí! 

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras. 

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