sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
InícioArtigosConfidências a Baudelaire

Confidências a Baudelaire

Clauder Arcanjo*

 

Étienne_Carjat,_Portrait_of_Charles_Baudelaire,_circa_1862

 

 

Por mera brincadeira, os homens de equipagem 

Caçam enormes aves do mar, albatrozes 

Que, indolentes, costumam seguir a viagem 

Do navio percorrendo abismos tenebrosos. 

 

            Sigo a minha viagem, Baudelaire, e nela ainda sinto uma vã aragem. Esta finge me trazer o mar para o sertão; e eis que, iludido, caio na farsa, mergulhando na sina da profunda ilusão. 

Se sonhar não é pecado, muito menos se imaginar albatroz no árido sertão. Entre a litania de falsos doutores, a chuva cai e fenece as minhas dores, enquanto o horizonte não me traz a alegria outrora imaginada no meu mundo de infante. 

 

& & &

 

Assim que sobre aquelas tábuas são largados 

Os reis do céu azul, envergonhados, trôpegos, 

Deixam cair, humildes, as imensas asas, 

Que arrastam pelo chão, como remos já soltos. 

 

            Hoje, adulto e calejado pelos anos, caminho cabisbaixo, arrastando as minhas crenças neste mundo tão desfigurado. 

No céu azul, a utopia insiste em alçar a bandeira de melhores dias, enquanto os meus olhos vertem uma lágrima, fruto do desengano do meu telúrico eu bem castigado. 

 

& & &

Como está mole e frouxo o alado peregrino! 

E, que tão belo foi, ei-lo cómico e feio! 

Um espicaça-lhe o bico, usando o seu cachimbo, 

E um outro, coxeando, imita o pobre enfermo! 

 

            Ao se aproximar de mim, caro leitor, prepara-te para ser testemunha de alguém alquebrado e sem vigor. Pouco me importa se zombam do meu mau jeito; mal sabem eles que um Poeta não deve ser visto de tão perto. Nossas asas líricas só resplandecem quando distantes do rés do chão, pútrido nada, “miasmas humanos”. 

 

& & &

O poeta é igual ao príncipe das nuvens 

Que se ri do arqueiro e afronta a tempestade; 

Exilado na terra e no meio dos apupos, 

As asas de gigante impedem-no de andar. 

 

            — Volta, Charles! Traze-me as rimas do teu ser alado. Estou exausto de viver no império dos tolos. Reinar neste principado, nunca. Prefiro a clandestinidade de ouvir-te na noite alta, “luz de claridade eterna”, entregue ao bafejo de uma malsã (porém bela) serenata. 

 

            Fonte: Poema “O Albatroz”, da obra As flores do mal, de Charles Baudelaire — tradução e prefácio de Fernando Pinto do Amaral, edição bilíngue (Lisboa: Assírio & Alvim, 4ª edição, 1998). 

            *Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!
- Advertisment -

Notícias Recentes