domingo, 1 de fevereiro de 2026
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Shakespeare no Raso da Catarina

Alex Medeiros
@alexmedeiros1959
Nem a família Ferreira tem semelhança com a Montecchio, nem a família Capuleto teve parentada no sertão nordestino. Mas que o amor entre o capitão Virgulino, o Lampião, e Maria Bonita foi e ainda pode ser considerado nossa versão da caatinga para Romeu e Julieta. É possível. Aliás, também o amor de outro capitão, o Lamarca, pela sua doce Iara poderia ser chamado de a versão terrorista tanto para o casal italiano, quanto para a dupla cangaceira.
As grandes histórias de amor não são grandes sem a sombra súbita da tragédia. E no Brasil, onde há poucos dias o advogado Tiago Pavinatto bateu recorde de autógrafos no lançamento de um livro sobre Lampião, arrisco dizer que nenhuma aventura amorosa foi mais clássica e shakespereana que a dos dois nordestinos.
Só que o rei do cangaço não tomou conhecimento da existência da família do seu amor, não esperou pela crise e se foi com ela viver sua história. Nada de fraqueza de um Romeu apaixonado e sem perseverança. A mesma virtude para Maria, seguidora do seu homem. O punhal dela era para o coração de “macacos”, nunca para o seu próprio.
Quase à margem das biografias e historiografias oficiais sobre o cangaço, a escritora Luciana Savaget lançou há alguns anos, pela editora Difusão Cultural, um livrinho de 32 páginas com belas ilustrações assinadas por um craque chamado Gilberto Miadaira, contando o amor dos cangaceiros.
O título, belíssimo, é “O Amor de Maria, a Bonita”, que a autora sugeriu perfeito para o objetivo da obra, que foi atingir leitores a partir dos sete anos (o que não é o caso de Pavinatto). Nada de tristezas adultas, como as cabeças decepadas dos amantes. Foi uma narrativa amorosa em tempos de ódio e poesia morta.
Alguém já disse um dia que a letra de Dominguinhos e Nando Cordel, sucesso na voz de Elba Ramalho, foi inspirada no amor de Lampião e Maria Bonita. Seria o clássico retorno do guerreiro ao colo da amada, uma odisseia grega ou mesmo um drama shakespereano: “Estou de volta pro meu aconchego, trazendo na mala bastante saudade; querendo um sorriso sincero, um abraço para aliviar meu cansaço e toda essa minha vontade”.
A dupla nunca confirmou a tese. Mas sem dúvida o capitão Virgulino achava sua Maria a estrela mais linda, a paz que gostaria ter tido. Morreram juntos, há 85 anos, sem o romantismo de Romeu e Julieta, mas com um amor mais real, pé no chão como o eterno xote que dançaram na poeira das lutas e da paixão.

Transcrito da Tribuna do Norte

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