quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
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8 de março: um dia sem nada para comemorar!

 

Todo ano é a mesma coisa: um dia em que parte das atenções se volta para as mulheres. As redes sociais ficam repletas de mensagens motivacionais e frases de efeito. Já a grande mídia exalta avanços e conquistas. Os poucos conteúdos que abordam a realidade de milhões de mulheres ainda têm pouca ou nenhuma repercussão.

Passados 50 anos da oficialização da data, as mulheres continuam lutando pelas mesmas pautas: equiparação salarial, mais oportunidades no mercado de trabalho, maior participação na política e em espaços de poder, além de mais segurança. Outro ponto essencial é o enfrentamento ao machismo e ao preconceito de gênero, principais fatores que impulsionam a violência contra as mulheres. Além disso, o debate precisa ir além da ampliação de direitos e focar na efetivação das garantias sociais, econômicas, culturais, civis e políticas previstas na Constituição.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, as mulheres ganhavam, em média, 78% do salário dos homens para a mesma função. Em 2023, o governo aprovou a Lei da Igualdade Salarial (Lei nº 14.611/2023), que busca combater essa desigualdade, mas sua efetividade ainda não foi medida de forma robusta.

O mais alarmante, no entanto, é que a violência contra as mulheres segue como uma dura realidade. As mulheres negras e de baixa renda são as principais vítimas. De acordo com o 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2024), 1.238.208 mulheres sofreram algum tipo de violência em 2023.

É inaceitável que o lugar mais perigoso para uma mulher seja sua própria casa, exatamente o ambiente que deveria ser seguro. A Rede de Observatórios da Segurança monitorou, em 2023, nove estados (BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP) e constatou que, a cada 24 horas, oito mulheres foram vítimas de violência doméstica.

Além da dificuldade de conciliar múltiplas responsabilidades e garantir o sustento dos filhos — já que muitas são mães solo —, essas mulheres ainda convivem com o medo da violência. Mesmo com leis mais rígidas, o Estado não garante a proteção necessária para que se sintam seguras.

Diante desse cenário, há poucos motivos para comemorar. Algumas pautas avançam, mas de forma lenta e insuficiente diante dos enormes desafios. As conquistas tornam-se pequenas frente aos obstáculos que permanecem. As políticas públicas desejadas e a proteção social esperada só serão eficazes com uma mudança real no cenário político. Por isso, o centro dessa discussão precisa estar na presença feminina nos espaços de poder e na política. As mulheres precisam se representar — depender exclusivamente dos homens não trouxe avanços significativos.

Hoje, essa participação é inferior a 20% dos cargos eletivos. Apenas 91 das 513 cadeiras na Câmara dos Deputados são ocupadas por mulheres — ou seja, 17,7%. No ranking global de participação feminina no Parlamento, o Brasil ocupa a 133ª posição, segundo dados de 2023.

Uma alternativa é garantir a reserva de cadeiras para mulheres no Parlamento, substituindo a cota de 30% de candidaturas femininas, que se mostra ineficaz e frequentemente fraudada. Essa mudança abriria caminho para um debate mais profundo sobre paridade de gênero em todos os cargos políticos.

Em 2024, o aumento de candidaturas laranja acendeu o alerta sobre a necessidade de rever essa legislação. Das 22.733 candidatas, 62% receberam apenas dez votos, e 791 sequer votaram em si mesmas — um claro indício de fraude.

O 8 de março é uma data simbólica e relevante, mas não pode se resumir a homenagens vazias. O que se espera são ações concretas. Só assim haverá, de fato, algo a ser celebrado.

 

Por Vanessa Marques

Vanessa Marques é jornalista, mestre em comunicação na Espanha, e atua há 20 anos na comunicação política, com 13 anos de experiência como coordenadora de comunicação de mandato na Câmara dos Deputados.

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