A violência contra a mulher não começa no feminicídio.
Ela começa no incômodo.
Incomoda quando uma mulher fala com firmeza.
Quando ocupa cargos de liderança.
Quando decide não se calar.
Quando assume espaços historicamente negados a ela.
A sociedade ainda reage com estranhamento e, muitas vezes, com ódio ao ver mulheres em posições de poder. E esse ódio não surge do nada: ele se manifesta em ataques, desqualificações, ameaças veladas e violência simbólica, que podem evoluir para agressões físicas e, em casos extremos, para o feminicídio.
Recentemente, uma delegada de polícia foi alvo de ataques nas redes sociais após publicar uma foto de sua posse. Não foi questionada por sua competência técnica. Não foi debatido seu currículo. O alvo foi sua imagem, sua postura, sua presença. O simples fato de estar ali, ocupando aquele espaço, foi suficiente para provocar reações violentas.
Isso não é um caso isolado. É um reflexo.
A violência contra a mulher se adapta ao contexto. Ela se reinventa. Quando não pode mais se manifestar abertamente, ela se disfarça de “opinião”, de “crítica”, de “brincadeira”, de “liberdade de expressão”. Mas continua sendo violência.
Assédio moral, assédio sexual, perseguição, exposição pública, ameaças e ataques virtuais fazem parte de um mesmo ciclo. Um ciclo que normaliza o desrespeito, enfraquece a mulher emocionalmente e silencia sua atuação social. É assim que muitas violências começam: no ambiente de trabalho, nas redes sociais, dentro de casa, em comentários aparentemente inofensivos.
O feminicídio é o último ato de uma escalada que foi ignorada por tempo demais.
Por isso, é urgente compreender que violência contra a mulher não se limita à agressão física. Ela também está presente quando:
• uma mulher é humilhada ou descredibilizada por ocupar um cargo de poder;
• sua voz é constantemente interrompida ou desacreditada;
• sua imagem é atacada como forma de intimidação;
• suas denúncias são minimizadas ou tratadas como exagero.
A Lei Maria da Penha reconhece essas múltiplas formas de violência. Ela existe justamente para proteger a mulher antes que o pior aconteça. Mas nenhuma lei, sozinha, é suficiente se a sociedade continuar naturalizando o ataque e o silenciamento.
É preciso que mulheres saibam identificar os sinais.
É preciso que homens se responsabilizem por suas condutas.
É preciso que a sociedade pare de tratar o incômodo como algo normal.
Mulheres não são violentadas por serem “fortes demais”, “expostas demais” ou “independentes demais”. Elas são violentadas porque ainda vivemos em uma estrutura que resiste à igualdade.
Falar sobre assédio e feminicídio não é exagero.
É prevenção.
É alerta.
É responsabilidade social.
Enquanto mulheres forem atacadas por simplesmente ocuparem espaços de poder, nenhuma conquista será definitiva. E enquanto a violência for relativizada, o silêncio continuará custando vidas.
Assina: Renata Ribeiro – Advogada
Instagram: @adv.renataribeiro




