Yes, nós temos vacina!

Por Natalia Pasternak

Temos uma vacina. A CoronaVac, que será produzida pelo Instituto Butantan no estado de São Paulo, apresentou, com algum atraso, seus resultados de eficácia, atendendo a pedidos da comunidade científica e da sociedade por maior transparência e clareza. 

Em coletiva de imprensa com cientistas independentes convidados (incluindo esta colunista), o pesquisador principal informou que os testes de fase 3 encontraram eficácia geral de 50,4%, e 78% de redução de agravamento da doença. São dados obtidos por meio de um o teste clínico bem desenhado, que seguiu um protocolo claro e predefinido, dentro de um padrão rigoroso. Podemos confiar nestes resultados. A eficácia de 50,4% atende ao mínimo exigido pelos critérios internacionais e nacionais. Os 78% de eficácia para prevenção de agravamento da doença trazem um grande potencial de reduzir hospitalização e morte, que afinal, é o objetivo principal de toda vacina para Covid-19. 

Uma eficácia geral de 50% indica que a vacina pode reduzir pela metade o risco de adoecer de Covid-19. Os 78% indicam a capacidade de reduzir a um quinto a chance de, caso a pessoa adoeça, venha a precisar de cuidados médicos. Isso tudo com uma vacina que praticamente não tem efeitos colaterais. Qual a justificativa para rejeitá-la? 

Com essa vacina, ainda teremos muita gente sentindo sintomas da Covid1-9, mas a maioria (78%) de forma leve, capaz de se recuperar em casa, sem complicações. Isso vai liberar leitos nos hospitais, e evitar catástrofes como a que vemos em Manaus. 

Além disso, com uma boa campanha de vacinação, teremos o potencial de controlar a pandemia. Mas para isso precisaremos que todos se vacinem. Uma vacina só é tão boa quando a adesão das pessoas. É uma solução coletiva, não individual. E saber a eficácia geral é importante justamente para estabelecer a meta das campanhas. Com 50%, sabemos que temos que investir pesadamente nas campanhas de comunicação, para esclarecer a população, e fazer com que todos se sintam seguros e confiantes para se vacinar. 

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Um último detalhe. Após apresentar seus resultados, o Butantan foi injustamente acusado de maquiar os números para chegar ao nível de eficácia de 50%, o mínimo necessário para aprovação. 

O fato, no entanto, é que o Butantan seguiu seu protocolo pré-publicado. Há métodos diferentes para calcular eficácia geral, e o Butantan chegou aos 50,4% usando a técnica que havia sido prevista em seu protocolo, definido antes que o estudo tivesse início. Outras vacinas usaram uma fórmula diferente. Se a mesma fórmula das demais fosse aplicada aos dados do Butantan, o resultado teria sido 49,6%. 

Faz diferença? Não. Se esses números fossem arredondados, ambos virariam 50%. Temos coisas mais importantes e urgentes para considerar do que meio ponto percentual. O mais urgente, de fato, é começar a vacinar. Temos uma boa vacina, uma vacina adequada para a realidade do nosso país. E não temos nenhuma justificativa para não começar a usá-la.

O Globo