sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
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Vanessa Marques:Prefeito de sunga reabre o debate sobre os limites da imagem pública das autoridades

O episódio do prefeito de Canhoba (SE), Chrystophe Divino (União), reabriu o debate sobre a fronteira entre a comunicação política tradicional e as novas linguagens digitais. Ao completar 40 anos, o gestor divulgou um ensaio fotográfico em clima de sensualidade, inspirado em referências da cultura pop como “50 Tons de Cinza”. As imagens viralizaram e provocaram risos, indignação e elogios. O prefeito defendeu a iniciativa dizendo que foi feita em casa, sem custos públicos, e que buscava apenas celebrar a vida de forma diferente. Mais que isso: afirmou que sua postura rompe o estereótipo do político distante, apresentando-se como um líder “próximo do povo” e autêntico.

 

O gesto, contudo, vai além de uma comemoração pessoal. Ele simboliza uma virada na forma como autoridades lidam com sua imagem: menos figura institucional, mais figura que mistura público e privado. Em um país de tradições conservadoras, atitudes desse tipo inevitavelmente despertam polêmica.

 

De um lado, houve quem visse inovação, ousadia e coragem. De outro, surgiram críticas sobre decoro, seriedade e representação institucional. A polêmica ganhou ainda mais combustível ao ser associada à figura do presidente Lula, revelando como episódios de forte apelo simbólico rapidamente se inscrevem na lógica polarizadora do debate político.

 

O fato é que esse caso expõe uma realidade mais ampla: a política já não se disputa apenas nas ruas, mas também no feed das redes sociais. A lógica da visibilidade transformou a forma como autoridades se apresentam e são percebidas. Na cultura digital, intimidade e espetáculo tornam-se estratégias eficazes de engajamento. Nesse ambiente, a atenção se converte em recurso tão valioso quanto os votos.

 

Autores como Guy Debord e Antônio Albino Rubim ajudam a compreender o fenômeno. Para eles, a política-espetáculo sustenta-se mais pela performance do que pelo conteúdo. O ensaio fotográfico do prefeito de Canhoba expressa essa lógica: não é apenas um aniversário, mas uma disputa por espaço na cena pública por meio de símbolos provocativos capazes de gerar reação imediata e muita repercussão para fora da sua bolha. Contudo, é importante destacar que pouco se sabe sobre o real impacto desse tipo de estratégia no eleitorado a médio e longo prazo.

 

O episódio de Canhoba deve ser lido, portanto, como sintoma de uma política submetida à tirania da atenção. O desafio não é negar as linguagens digitais, mas encontrar o ponto de equilíbrio. Afinal, autoridade não se mede por curtidas ou críticas em um ensaio fotográfico, mas pela capacidade de conjugar autenticidade com compromisso público.

 

Vanessa Marques

Jornalista, professora e palestrante. Mestre em Comunicação pela Universidade de Valência (Espanha) e pós-graduada em Economia e Ciência Política. Atua há 20 anos na comunicação política, sendo 13 anos na Câmara dos Deputados.

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