quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
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Austeridade em Paris: o erro de Zema e o fim dos políticos técnicos

A recente viagem do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, a Paris poderia ter passado despercebida. Mas bastou uma postagem nas redes sociais digitais para que o episódio ganhasse vida simbólica: ele afirmou estar hospedado fora do centro “porque é mais em conta”, porém ele não informou o valor gasto na hospedagem. Ao divulgar sua hospedagem modesta, o governador buscou reforçar a imagem do gestor austero, avesso a luxos. Mas a tentativa de encenar simplicidade em Paris expõe o paradoxo desse tipo de comunicação: é a performance da economia, e não a economia em si.

 

Durante anos, os chamados “políticos técnicos” acreditaram que a eficiência administrativa e o discurso da austeridade bastariam para legitimar o poder. Na prática, a técnica foi transformada em moral: cortar gastos virou sinônimo de virtude e simplificar tornou-se prova de honestidade. O problema é que, em tempos de midiatização total da vida pública, a política não se sustenta apenas sobre números e, ao que tudo indica, em Minas Gerais, nem os números ajudam Zema.

 

Esse é o drama do governador mineiro e de toda uma geração de gestores que confundiu política com administração. Guy Debord já alertava que, na sociedade do espetáculo, o que conta não é a realidade, mas sua encenação pública. O político técnico, ao tentar parecer eficiente, acaba reproduzindo a lógica espetacular que dizia rejeitar.

 

A história de João Doria parece não ter ensinado muito a Zema. O governador insiste em vender a imagem de gestor técnico, mas não percebe que isso já não é suficiente nem para garantir espaço real na disputa presidencial.

 

Se quiser se projetar nacionalmente, precisará fazer um giro de 360° em sua comunicação, abandonando o discurso de planilha e buscando aproximação com as pessoas. A imagem do empresário simples e descolado perdeu força e cansou. Em um país movido por afetos, não basta parecer eficiente; é preciso fazer sentido emocionalmente.

 

Mesmo Tarcísio de Freitas, que começou explorando o mesmo arquétipo de técnico, já compreendeu os limites desse modelo e tem tentado mesclar sua comunicação com gestos mais populares, apostando em empatia e presença simbólica. Zema, por sua vez, continua apostando na racionalidade fria como se ela ainda fosse suficiente para emocionar.

 

Austeridade sem empatia não emociona, e técnica sem narrativa não mobiliza. No palco da política midiatizada, o gestor que tenta se mostrar simples em Paris talvez não perceba que o público já entendeu o enredo. O espetáculo mudou de ator: a era dos políticos técnicos está chegando ao fim.

Afinal, a disputa contemporânea se dá na arena das emoções e dos símbolos.

 

Por Vanessa Marques – jornalista

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