VAMOS MALHAR?

NILO EMERENCIANO - Arquiteto e escritor

Sou como Rita Lee: a atividade física que eu mais pratico é dormir.  Mas admiro esses atletas amadores que reservam uma boa parte do seu tempo para uma prática esportiva. Cheguei a tentar, instado pela minha médica. Criei coragem e me dirigi a uma academia perto de casa. Ao entrar, meus ouvidos quase arrebentaram com uma “música” tipo bate-estacas vinda dos quatro cantos do salão. Botei uma cara de desagrado e a atendente sugeriu: – Podemos mudar o som, se o senhor quiser. Arrisquei: – Rola Altemar Dutra? Fui convidado gentilmente a me retirar.

Essa onda em torno do culto ao corpo, principalmente sempre que se aproxima o verão, teve início nos anos setenta com o teste do Dr. Cooper e se alastrou rapidamente numa profusão de academias e novas formas de ginástica, tipo aeróbica, anaeróbica, tai- chi- chuã, artes marciais, pilates, tae-kwon-do, zumba, etc.

De um dia para o outro as nossas ruas, praças e calçadas se encheram de pessoas de todas as idades alongando, caminhando, correndo, fazendo abdominais ou exercícios de barra.

Nada contra.

Mas não deveríamos experimentar fazer o mesmo com a nossa moral?

Não vamos nos tornar melhores e mais perfeitos (moral e intelectualmente) sem que haja algum esforço pessoal. Nosso progresso não vai cair do céu. É necessário que exercitemos a cada dia, de forma metódica e disciplinada, a prática e o exercício das boas virtudes.

Temos que malhar! Que tal um programa para isso?

Poderíamos começar por trabalhar os músculos da nossa paciência. E ao fazê-lo, beneficiaremos também os da tolerância e da compreensão para com as fraquezas do nosso próximo. Três repetições de quinze movimentos, cada.

Depois, trabalharíamos de forma muito séria, as gorduras acumuladas do nosso egoísmo, através de exercícios de solidariedade, fraternidade e altruísmo.

Para os músculos das pernas talvez fosse indicado muitas caminhadas pelas ruas, visitando os abrigos de idosos, orfanatos e hospitais, aprendendo um pouco de humildade e desprendimento.

Como em toda atividade física que se preza, o candidato deve também fechar a boca. No nosso caso não para os doces ou massas, mas para o que dela sai. Nada de maledicência, injúrias, conversas vazias ou ofensas.

Mas nada disso vai adiantar se o atleta da moral não se entregar plenamente ao exercício do autoconhecimento. Para isso se recomenda sessões de silêncio e reflexão. Além disso, uma análise acurada dos nossos atos (se estamos sendo bons ou maus, generosos ou mesquinhos, nobres ou canalhas, queridos ou detestados) vai ser de fundamental importância. Tudo isso frente ao espelho fiel da autocrítica.

Santo Agostinho dizia que a coragem é uma virtude cristã. Então, para não agirmos como esse pessoal que comparece à CPI, tentemos encarar as coisas de frente, sem curvar a espinha e falando sempre a verdade. Além de assumirmos as responsabilidades pelos nossos atos.

Não podemos fazer nada disso sem o acompanhamento de gente que entende do assunto.

Para isso, duas atividades são recomendadas: primeiro, a leitura de bons livros, talvez até a biografia das grandes personalidades do bem, tipo Gandhi, Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Benjamin Franklin, Madre Tereza, Irmã Dulce, Bezerra de Menezes, Chico Xavier. Afinal, todos foram bem sucedidos na área da retidão moral. Segundo, a prática diária da reflexão, momento em que o nosso Instrutor Maior- ou a consciência, se você preferir – vai nos inspirar e estimular a determinação.

Depois, nada de dormir sobre os louros dos resultados alcançados. Há que se ter consciência que essa prática deve ser constante, sob ameaça de sofrermos recaída, voltando ao estado anterior. Para isso, sabemos todos, é recomendada a constante vigilância.

Agora estamos quase prontos para o que vai ser o ano de nossas vidas.

Percebemos que somos outros. Lépidos, fagueiros, otimistas, saudáveis. Encaramos a vida com outra disposição.

Ficaram longe as angústias, a tristeza, o pessimismo.

Esquecemos um pouco a Covid-19, o número de mortos, as taxas de desemprego, a educação e a economia em declínio.

Somos atletas do bem, “sarados” e empolgados com os resultados obtidos.

Já pensamos até em participar, quem sabe, da Grande Olimpíada, a da Solidariedade, em que o importante não é vencer nem competir, e sim, participar.

NATAL/RN