Vaias, repreensão pública e rompimento de vice abalam gestão Francisco José Júnior

A procissão de Santa Luzia, anteontem, confirmou a expectativa de que produziria fato político. E coube ao prefeito Francisco José (PSD) o protagonismo no noticiário. Ao decidir discursar no encerramento da festa da padroeira, no adro da matriz, tornou-se personagem principal de uma trama construída por vaias, repreensão e constrangimento públicos.

Francisco José Júnior fez seu discurso sob vaias da multidão. Do começo ao fim do pronunciamento. Os apupos geraram constrangimento até em outras autoridades políticas presentes, como o aliado governador Robinson Faria (PSD).

Se as vaias incomodaram, porém, já eram esperadas pelo próprio prefeito. No discurso que leu na íntegra na solenidade, fez menção ao protesto, logo no começo do pronunciamento. “Vaiar é exercer o direito legítimo de discordância ou crítica”, iniciou, voltando ao tema, mais adiante: “A vaia dói muito no orgulho de um homem”.

Em determinado momento, disse-se vítima e perseguido pelo que chamou de “velha política”. E fez paralelo seu com Santa Luzia, apóstolo Paulo e até Jesus Cristo: “Vejam Luzia. A jovem virgem de Siracusa que celebramos hoje. A sociedade da sua época a perseguiu e tirou sua vida. Paulo de Tarso, o apóstolo dos Gentios, levava a mensagem pura de Jesus para todos os lugares e foi surpreendido tantas vezes por bem mais que vaias. Era atingido por pedradas e acusações. E o que dizer, meus irmãos, do próprio Cristo humilhado, crucificado pela sociedade da sua época mesmo sem ter nada a se censurar?”.

Após essas e outras palavras, o prefeito anunciou a conclusão do projeto arquitetônico do Santuário de Santa Luzia, que deverá ser construído na Serra Mossoró. O pronunciamento, entretanto, não provocou apenas vaias e constrangimento, mas crítica de populares, adversários políticos e até repreensão pública do bispo dom Mariano Manzana.

REAÇÃO
Vereador Genivan Vale lastimou o episódio. “Lamentável que uma autoridade seja vaiada em evento público pelo seu próprio povo. Esperamos que o prefeito tenha a maturidade para entender que a vaia é o ‘aplauso dos insatisfeitos’ e com isso ele possa reavaliar sua gestão e que possa mudar seu jeito de administrar, de modo a atender os anseios e as necessidades da população. Quem sabe assim ele passa a ser melhor avaliado pelo povo”, comentou.

A avaliação do vereador Lairinho Rosado (PSB) também foi de lamentação: “Lamento que o prefeito tente se comparar a Jesus e Santa Luzia para afirmar que há rejeição contra ele porque a sociedade não o compreende. As vaias são aplausos dos insatisfeitos e Mossoró mostrou quão insatisfeita está com o prefeito”.

Luiz Carlos oficializa afastamento e dispara contra gestão municipal

No final da tarde de ontem, o vice-prefeito de Mossoró, Luiz Carlos Mendonça Martins (PT), anunciou, em nota, rompimento com o prefeito Francisco José Júnior (PSD).

“Venho a público reafirmar nosso distanciamento político e administrativo diante à condução da gestão do Prefeito Silveira Júnior, que ao optar por um modelo de gestão centralizador e indiferente as demandas sociais da cidade, assume uma feição autoritária na relação com os mais diversos segmentos sociais e se mostrou incapaz, ao longo do curto mandato, de manter uma relação institucional e respeitosa com a vice-Prefeitura”, afirma.

E continua: “Ademais,destacamos ainda a falta de transparência dos atos do Executivo e ausência de uma agenda política e programática capaz de enfrentar a crise econômica e administrativa, bem como o quadro de insolvência que o município vivencia”.

Luiz Carlos rememerou fatos subsequentes à sua posse na Prefeitura, “marcados por tratativa nada aceitável para um vice-prefeito”, citando como exemplo dois meses sem gabinete e sem conseguir nenhum assessor, entre outros acontecimentos.

“Fizemos uma escolha que não nos restam dúvidas: Entre uma gestão calcada em métodos antidemocráticos, na falta de transparência com os recursos públicos e na falta de respeito a centenas de trabalhadores e trabalhadoras, assumimos manter nossa trajetória de compromisso com as classes populares”, posiciona-se.

Bispo dom Mariano: ‘Até hoje, não recebi resposta da Prefeitura

Logo após o discurso do prefeito Francisco José Júnior e de receber dele o projeto do Santuário de Santa Luzia, no encerramento da festa da padroeira, anteontem, a palavra foi concedida ao bispo dom Mariano Manzana.

O dirigente da Igreja Católica local começou o discurso, contando que, há quase dois anos, a diocese de Mossoró pediu formação de comissão bilateral, entre membros da Igreja e da Prefeitura, “para estudar, ver, considerar, avaliar tudo que diz respeito a esse sonho antigo de um santuário.”

Isso, porém, não aconteceu, segundo o bispo. “Até hoje, eu não recebi resposta, e a Prefeitura louvavelmente continuou o seu projeto, que hoje entrega quase como uma coisa nova nas mãos do bispo, que irá olhar, ver e, nos próximos dias, dar uma resposta”, disse.

Dom Mariano Manzana justificou o pedido acerca da comissão bilateral. “Nós pedimos uma comissão para que uma coisa grande, que envolve também a Igreja, não pudesse tão somente receber surpresas, mas pudesse trabalhar juntos. Acredito que juntos se chega, sem dúvida, a um consenso. Essa hoje é a posição da Igreja”, concluiu sobre o assunto, e depois passou a discorrer sobre a Festa de Santa Luzia 2015.

Prefeitura transfere responsabilidade por Santuário para iniciativa privada

A Prefeitura de Mossoró apresentou projeto arquitetônico e maquete eletrônica do Santuário de Santa Luzia, na cerimônia de encerramento da festa da padroeira de Mossoró, anteontem à noite, no adro da Catedral. Segundo o Palácio da Resistência, a obra será viabilizada pela iniciativa privada, por meio de uma Sociedade para Fins Específicos (SPE).

Para isso, o município fará chamamento público com duração de 30 dias, no qual será definida a empresa que construirá o santuário, conforme projetado e com base na melhor proposta de participação nos lucros do empreendimento para o município.

A Sociedade para Fins Específicos (SPE), ainda conforme a Prefeitura, é uma alternativa encontrada pela gestão municipal para que a obra, além de não ser viabilizada com recursos públicos, seja revertida em arrecadação para o município.

“Também é uma alternativa para que esse projeto, que pertence à sociedade, não fique preso ou travado quando da troca de gestores ao passo dos sucessivos processos eleitorais”, explica o prefeito Francisco José Júnior, através da Secretaria de Comunicação Social.

Concluídas as fases iniciais, segundo a Prefeitura, o município dará seguimento à formação de comissão, que acompanhará o processo após a conclusão do projeto complementar, o qual será etapa que culminará na definição dos custos finais da obra, hoje estimada em torno de R$ 20 milhões.

As cifras são projetadas pelo Escritório de Arquitetura Escala, de João Pessoa (PB), responsável pela elaboração do projeto inicial. “O que nos chamou a atenção para que o Santuário seja executado através de SPE foi justamente a estimativa do valor da obra”, explica o secretário de Infraestrutura, José Couto.